Livro: Cheiro, Gosto, Feitiço: Ana Diniz assina contos sobre a vida e comida no Pará.
Autora: Ana Diniz.
Ilustrações: Anselmo Gomes.
Editora: Paka-Tatu. Belém/PA.
Ano: 2026.
Sugere o bom-senso, ou pelo menos o senso comum, que os sentimentos pessoais interfiram o menos possível na elaboração de uma resenha, principalmente quando são tão intensos como os de um filho para com sua mãe. No entanto, a presunção de não soar oblíquo na avaliação desta obra é forte o suficiente para que o orgulho vire as minhas costas aos sensos da vida e me permita a extravagância de fazê-la, mesmo ao peso de desconfianças e críticas.
Ana Diniz é paraense natural de Oriximiná, ou uma espoca-bode como são apelidados os que lá nascem. Além de escritora, foi jornalista e cronista com coluna diária, entre outras ocupações. Mãe e excelente amiga, é uma cozinheira que não se fez só com a prática diária, mas também como um estudo que uniu seu conhecimento pessoal e sua vivência amazônida ao que pesquisava e aprendia continuamente e que traz como cerne desta obra com a qual nos presenteia.
Neste seu novo livro, Ana reúne treze contos em que deita no papel aspectos fundamentais da cultura da Amazônia, especialmente a paraense, como a vida simples dos caboclos e suas relações pessoais e com a natureza, a “eterna” e inescapável chuva e os rios com seus igapós e paranás, as festividades provincianas e os conhecimentos nativos da terra, com seus botos e a Jurema. Tudo costurado com o tempero das comidas típicas com as quais nos brinda pelas descrições gerais de suas receitas, tema central com papel certo em cada conto.
Com uma escrita acessível e encadeamento fluido, cada conto parece ter a extensão exata para todas as vistas, das infantis às cansadas, prendendo a atenção do início ao fim de cada história, onde sempre há um toque próprio de encerramento, ora surpreendente ora reflexivo, mas sempre marcante, típico da escritora.
Publicada pela regionalíssima Paka-Tatu, nesta sua mais recente obra que, aliás, ainda conta com os traços suaves de Anselmo Gomes que a ilustram e encantam, não dá para imaginar que seja apenas uma leitura, é uma verdadeira degustação a ser tragada de uma vez ou, como sugiro, ser sorvida aos poucos, imaginando ouvir e cheirar o rio e a chuva da tarde, o tacacá, a mujica, o pirarucu, dentre tantos outros elementos regionais brilhantemente apresentados.
Enfim, há ainda uma gentileza prestada no livro: um apoio ao final na forma de um mini glossário, alargando as fronteiras do regionalismo e enriquecendo também as letras do país, por que não!? Convite aberto. Vale a pena! Enfeitiça!

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Uma resposta
Deve ser um livro “gostoso” de ler, certeza que vou comprar. Dona Ana sempre tinha um lanchinho pros amigos dos filhos, boas histórias e papo pra dias!!