Recordar e amar.
Não que soubessem mais um do outro do que suas lembranças infantis, ou melhor, do início de suas adolescências, transformações obscuras num fervilhar emotivo das borbulhantes emoções hormonais.
Eles sempre se acharam belos, um ao outro, a seu jeito de menina e de menino, ele olhava o despertar da mulher, pois sempre fora feminina e este seu lado nunca o surpreendeu. Ela o achava bobinho, agradavelmente tolo, brincalhão e divertido. Não havia soerguido nele os montes ou adornos musculares do homem, sequer um ou outro pelo facial dava fagulhas da sua lourice explosiva.
Isso o frustrava, pois não entendia a natureza física distintiva entre a maturação de meninas e meninos – achava-a como um acabamento seu natural, como um lado do seu coração. Isso definitivamente os afastou. Ela, mais madura, casou-se cedo… ele, como todo homem, há de esperar seu longo tempo de amadurecimento. Assim pensou e seguiu sua vida.
Como o destino fosse um filho humanizado do tempo viciado em pregar peças nos ciclos humanos, certo dia encontraram-se. Ambos mais velhos. Ela se apercebeu mais velha e cansada como só as mães separadas se podem imaginar. Ele não lhe viu tais traços, mas se apercebeu como os homens maduros se vêem nos ritmos dos tempos avançados, como velhos navios com movimentos rangendo em cordames frouxos, muito sem vontade de navegar águas desconhecidas, ou se o fizer, será apenas à deriva, pelos ventos e ao apelo do soçobrar em já desnudas praias. Nada disso ela viu nele, só observava um par igualmente velho e cansado.
Conversaram, descobriram uma primeira coisa juntos: as pontas. Sim, as pontas cortadas àquele tempo permaneceram, pois quando são talhadas no espírito não mudam com facilidade, de modo que quando cada uma foi religada, o fio reconectou àqueles mesmos tempos idos. De repente, lembrou-se ele que o sorriso dela permaneceu o mesmo. Nada disse, pois não havia o que dizer, mas o sorriso era, sem dúvida, o que permaneceu. O sorriso era por si só um conjunto, não dentes e boca, mas um todo indivisível. Não sabia também o porquê, mas os sons e o cheiro nela, isso ainda era igual.
Nervosa ela estava, sem dúvidas, pois sem olvidar de haver cautela num primeiro encontro, ou reencontro neste caso, as mulheres parecem sempre preferir o aprofundamento das coisas nas relações. Achava que falava demais, ria demais, mexia demais? Pensava o que ele estaria pensando dela? Antecipava o fim da súbita empreitada. Fracasso? Sucesso? O sapato apertava o maldito dedinho.
Achando seu silêncio estranho, a única profundidade que ele conseguiu adentrar sem o risco de afogar na babaquice foi achar que ela poderia estar considerando-o um pedante, um velho chato num mundo de homens que sabem ostentar qualquer máscara, mas sem as quais, morrem rapidamente em qualquer base mais sólida entre duas pessoas. Arriscou e pediu para que ela falasse de si, mas com interesse genuíno, pois gostava de vê-la falar, mexer e ficar incomodada aos seus atentos e vigilantes olhos.
A surpresa de um homem pedir para falar de si mesma com interesse a assaltou, quase como um convite para uma dança. Não estava mais acostumada com interesses outros em si do que o limitado interesse do ex-marido, que ao longo dos últimos anos, era quase uma obrigação, insuportável para ambos. O que mais incomodava nem era a falta de interesse declarada, mas o interesse fingido, epitáfio pobre de tantas relações quebradas.
Então, foi quando pela primeira vez notou as sutis mudanças que aquele seu fio não percebeu antes. A mudança que a agradou não era nem tão física. Claro que feio ele não era. As mudanças de caráter são, de ordem geral, as que separam meninos de homens quando se trata de relacionamentos. Muitos não superam e nem se tornam homens, apesar dos pesares e dos pesares… e nele ela finalmente vislumbrava, então, o homem que se tornara.
Ao deixá-la na porta de casa, à soleira de sua entrada, olhando-se ternamente, ambos tinham mais do que experiência para saber que sem palavras, som ou voz, fala-se mais com a furtividade dos olhares que um solilóquio Shakespeariano sobre o amor. Lentamente, os lábios chegaram perto o suficiente para que uma fuga de último momento fosse uma impossibilidade certa naquele precipício dos sentidos, beijando-se pelos vinte anos de distância.

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