Pequeno Diálogo dos Olhares

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback
a watercolor painting of a woman's eye

— Adoro deitar e olhar um céu que se perdeu…, disse-me Ângela.

— Se perdeu, como assim? Indaguei.

— Na cidade, não temos mais, pagamos o preço de vivermos da noite, roubando boa parte dos seus encantos e ela nos tolheu a presença das estrelas. Mas aqui, pra onde viemos, posso resgatar um pouco disso.

Estávamos, Ângela e eu, em uma cidadezinha distante algumas centenas de quilômetros de Brasília. Coisinha pequena aquela cidade mesmo. Parte histórica e parte abençoada por atrativos naturais, como cachoeiras, trilhas, recortes de cerrados e, sim, o céu estrelado que Ângela redescobriu e o retomou para si como só um ser humano ousa. Ela continuou:

— Sabe, eu sempre achei que são tantas estrelas, que ao olhar o céu, tenho a certeza que meus olhos encontram pares a me olhar diretamente, desde pequena imaginei que as estrelas sempre me olhavam…

Virei-me agora, pois a última frase chamou minha atenção. Sem luz, os parcos reflexos de sua alvura era o que eu precisava para ver o seu corpo estendido a olhar para cima e perceber que as pinceladas das mais variadas matizes de cinza criavam um divisor para com o negrume da noite. Era seu contorno.

— Quisera eu saber o que tais estrelas dialogam com os teus olhos, Ângela — retruquei com um devaneio poético pobre pelo qual ganhei de resposta um suspiro questionador para o qual eu disse: — Simples, conversamos como nunca nos dois dias daquela reunião quando nos conhecemos.

— Como assim? Um dia antes daquela reunião, nem me conhecias, depois, foram dois dias de reunião, onde só nos falamos ao sermos apresentados e você ficou mudo durante todo o debate, finalmente se aproximou e nos conhecemos melhor. Daí, a gente está aqui hoje.

Não reparei, mas enquanto procurava firmar meus olhos nos dela, Ângela suavemente voltou o corpo na minha direção. Aquele deslocamento provocou uma sensação de que eram seus cabelos que me acarinhavam o olfato ao me entregar um doce pacote do seu cheiro dosado no ar frio.

— Sou um observador, Ângela, é a minha especialidade, por isso aquele silêncio, aquela mudez. No entanto, as pessoas à mesa naquelas reuniões intermináveis passam o tempo inteiro conversando comigo no silêncio dos seus gestos e posturas. Elas são, pra mim, tão sonoras como pinturas e eu não me importo com elas, porém há casos especiais como o seu em que há o diálogo.

e continuei:

— Eu percebo esse diálogo quando os olhos ficam se comunicando. O corpo fala como os outros, mas os olhos dialogam entre si. É aí que eu preciso saber se há uma conformidade, uma correspondência das coisas que os olhos parecem estar me dizendo. Aqui houve e o agora não te parece o resultado de dois dias nos olhando?! — enrodilhava meu dedo numa mecha teimosa do seu cabelo.

— Não, eu…de vez em quando…, parou pensativa.

— Sim. E as falas desses diálogos sempre são curtas, mas é quando descobrimos mais do que quando simplesmente falamos. É apenas aprender, daí você começa a entender toda a beleza de uma coisa que é tão sutil entre as pessoas.

Era incrível como seus olhos me eram visíveis apesar de toda a escuridão. Não sei se eram assim quando iluminados, mas para mim, aqueles grandes olhos morenos estavam ali, dialogando com os meus, mesmo que a gente conversasse e ela ainda nem percebesse.

Um suave vento soprou a secreta aproximação da aurora. Ficamos ainda mirando o céu quando, por fim, ela disse:

— Gostei disso, talvez nunca aprenda ou sequer acredite, mas gostei. Podia então te pedir um beijo sem falar. Posso?

Com olhos que agora estavam diferentes: seguros e austeros. Era uma mulher que em meu mundo silencioso aprendeu não um pedido, mas um comando pelo próprio olhar e naquela minha própria linguagem.

E nos beijamos calando finalmente os olhos.

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