Provocações e Visita

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Provocações

Pergunto-me se os animais conhecem a morte
pois a paga da reflexão humana, penso, é o saber sobre ela.

A morte valerá mais
quando for rara frente à imortalidade dos homens.

A morte por findar uma representação única
encerra uma poesia cósmica inédita.

Não a desejo para ninguém
porque é um covarde jogo de cartas que eu venceria sempre.

Todos morrem, afinal,
porém a fome mata antes a alma que o corpo.

Ah, morte, sua denominadora comum!
Que nos iguala em tudo no seu momento
Suprema justeza num singelo toque
Que até agora sobre o homem regra

Ah, morte, sua onipresença sabida
Mas escondida aos olhos até o suspiro final
Quando acolhe aquele ser
Que no presente descobre o que foi na vida

Ah, morte, a rainha temida
De um reino indesejado por muitos
Porém, irrefreável destino humano
Lugar comum nas angústias fremidas

Ah, morte, ó suprema
Sombra constante no cotidiano de todos
Sendo humano, todavia, não me escapo por aqui
E te encontrarei por certo no fim dos meus dias

O suicídio, então, uma desrazão
que só o suicida irracionalmente conhece.
Torço sempre pelo seu fracasso.
A eficiência da sua morte sempre impressiona, afinal.

Como posso eu comentar, então
Da amoralidade
De quem parte
Por conta-própria?
Julgo a raiva do que ficou
Casado à tristeza de quem restou
E peso na balança do desterrado

O suicídio é a serpente de cada um
E o seu espelho também
A procurar refletir n’algo ou n’alguém
Uma razão contorcida e retorcida
Que apenas a si próprio pertence e faz sentido

Do ritual planejado ao impulso acionado
O desespero agoniado
Angústia última no peito
Não quer, não quer e não quer
Sua realidade partida

Cego fica no absoluto torpor
Em sua sina autoassassina
Nem todos os castigos abafam
E nem todos os corações lhe tocam
A decisão final pela própria extinção

Caminho solitário
Única decisão real pensa
Então, no instante final
A realidade é que lhe come
E roído de vermes no túmulo some

Visita

Hora Grande. Quarto escuro. Deito-me. Um vulto!

— Ah, morte! Novamente nada te chama. Que fazes novamente ante minha cama?

— Teu sono me convida e meu beijo em ti precipita.

— Hóspede sem convite que aos meus olhos cerrados se lança.

— É que o sono do homem é o ensaio da minha dança.

— Acordarei ainda. Tua satisfação não será plena.

— O acordar nada mais é que o fechamento da minha cena.

— E o que te faz pensar que em ti logo acredito?

— Pois não és louco! Antes aquele que me vê nasce bendito.

— Que te faz pensar de mim assim?

— Escolhidos e selecionados os que veem e falam a mim.

— Antes maldito então sou por ver a inevitável em adiantada hora.

— Não, para todos chego no momento certo e sem demora.

— Amealhas a todos com teu beijo inescapável. Ninguém te resiste, morte.

— Os que me conhecem antes nada temem, eis a tua sorte.

— Ver-te e sentir-te nada trás da tua razão de ser.

— Sou o que sou por obrigação do mundo… da Criação.

— És, pois, o fim, a escuridão e o nada.

— Para homens ordinários é o que basta.

— Tiras, enfim, a existência. Por que eu te teria por querida?

— Sem mim não haveria nem vida. 

— Afasta-te, então, abjeta coisa, pois quero acordar.

— Não é sono, isso é só teu desejo pelo meu beijo que irei te dar.

— Sai, sai, sai….

Escuridão passa, vem o alvorecer e um dia a mais para se morrer.

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