Carta ao Amor que vai Chegar

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback
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ou que talvez nunca chegue.

Belém, 10 de julho de 2023.

Aos meus amores transtemporais e transgeracionais.
Aos meus amores inominados.
Enfim, a você, amor.

Neste calor abrasivo deste equador que me sufoca, teu amor será como o alívio da chuva ao me saber visto, lido e entendido. Destarte, já te amo só por isso.

Peço-te perdão por não trazer aqui a lembrança passada do nosso futuro amor, pois isto me seria racionalmente impossível. No entanto, como o amor é coisa perfeita que não respeita este nosso imperfeito tempo, acredito que possamos falar dele de todos os modos possíveis.

De todas as impossibilidades de te conhecer antes de te ver eu escolho o sonho, aquele que me permite te criar, moldar, enxergar e tocar nos contextos das minhas limitadas percepções, mas que hão de se enquadrar no máximo amor que posso contigo viver.

Chamaria eu de amor qualquer limite ao teu ser? Qualquer cerco à tua felicidade? Amando a tua totalidade, não amarei as tuas partes? Após te erguer, então, do meu barro onírico, haverei de amar, antes de tudo, teu modo de ser e a tua liberdade plena de te definir.

Ah, felicidade vindoura, espero estar à altura do que te transformares com o tempo, já que tu me demandarás e eu, ao servir esse amor, saberei bem que sem a tua correspondência, irá se rachar aquele cristal que habita em meu peito. Ferida sem cura, trinca sem reparo.

Amar-te por ser agora o etéreo, incorpóreo e sonhado já não me requer tanto esforço quanto imaginei, pois me tornou artigo de fé amar sem ver, ter ou tocar. Um desejo esculpido no próprio amor é o que me permite tal desvario, nem vão e nem são.

Por me ver tão longínquo em tempo e espaço, sei que teu deslocamento demasiado longo para mim é eterno no gosto que a espera me deixa. Tal sabor acumulado desperta minha sanha da diluição em teus lábios, de forma que estilística nenhuma me empresta a sensação que teimo em deixar neste papel.

Tua chegada há de me anunciar, então, primaveras constantes.

Bálsamo meu, espero-te neste aflitivo calor, sempre.

Felipe Diniz

Publicado originalmente na Antologia Cartas ao Amor que Vai Chegar, Coletivo Editorial Literabooks, 2024.

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