A noite me acorda com um beijo
Molhado de suor quente na testa
Dizendo com jeito
O Sol já molesta
Saio o alvorecer com piados
Encerram-se a noite os miados
Largo baladeira
Vou para a beira
Café e pão e café, só café
Muitos olhos para a feira
Como jacarés à espreita
Da presa que vem numa boa fé
Comprar, negociar e potocar
Pelas rasas a derramar
Aqueles “A”, “Ç” e “Í”
Caroços de boa raiz
Levo o que posso
Lavo como dá
É, sim, pão do nosso
Amolece já
Para bater as letras de forma esperta
Dando papa, grosso, médio, fino ou popular
Manhã, tarde ou noite a palavra certa
Que acompanhe com aquilo que se desejar
E vender e dar à nossa magra gente daqui
Seu almoço, sua janta, a sobrevivência
Papando do sumo com sua malemolência
Dessas letras batidas formando o açaí.
Notas:
- Açaioba: uma das formas carinhosas de se referir ao açaí no Norte.
- Baladeira: rede de dormir.
- Papa, grosso, médio, fino ou popular: formas de venda do açaí depois de batido, dependendo da quantidade de polpa e água usada. Quanto mais água e menos polpa, mais ralo e barato é
- Potocar: contar potocas, mentir.
Publicado na Coletânea de Poesias Poemas Pensantes, do Coletivo Editorial Literabooks – CELB.

Ainda não há respostas