Adendo Rosa

Comentários recentes

  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback

Lendas, lendas, lendas…

Os contos sobre as lendas relacionadas ao rio Amazonas são como fios de cordas que se assemelham àquele rio: sinuosos e com milhares de meandros; alguns perenes – sempre presentes e vivos; outros intermitentes – vem e vão como o regime dos rios; e alguns mortos – não duraram muito. Alguns, entretanto, persistem em algumas partes – talvez seja o caso deste conto. Porém, toda ponta desse cordame, dessas veias que dão vida ao saber místico e cotidiano do amazônida é sempre acrescida a todo instante de mais um fio mesmo nos lugares mais recônditos de seu vasto mundo.

Nina fixa há um tempo o que lhe parece um céu com grossas formas de nuvens, dobrando-se por sobre si mesmas em uma cadência que sugere que os ventos estão indecisos quanto a uma direção. Tal céu, acobreado, dava uma impressão de querer mais uma vez guardar para si mesmo sua filha chuva, pois apesar do escarcéu de trovões e barulho de água, ela nada sentia na pele; e por vezes, achava que o céu todo se segurava para não cair. Da rede, Nina olhava as telhas do teto pensativa.

Há algum tempo, não muito, Nina percebera um boto cor-de-rosa, uiara no dizer dos índios, que passava por debaixo de sua casa. Bonita e rústica construção, toda em madeira e suspensa sob palafitas no beiradão de um igarapé do rio Japurá. Morava a sós com a mãe, Mayara, porque seu pai e a avó deixaram o aroma da saudade em seus lugares: o odor do patchouli seco – onipresente nas roupas da casa.

Seu dedão acariciava a parede de madeira que, em retorno, empurrava de volta a sua rede e os pensamentos – que diachos um boto faz debaixo da nossa casa? E tem peixe aqui por um acaso? Eras!

Ao cair da tarde, sua mãe entrou com a pequena lamparina a querosene, o fogo puro é o único que remedia a escuridão, e olhando Nina, estacou e falou:

— Olha, amanhã, tu dás um pulo no jiral. Tem que ver o que colher que amanhã subo na canoa do s. Rubens pra pescar algo pra gente. Por enquanto, por respeito ao teu pai ele nada me cobra, mas já sabes, né?! É só apertar o dinheiro que ele esquece das amizades.

A caboquinha fitou a mãe pela borda da rede e perguntou:

— Mãezinha, me diz uma coisa. A senhora também anda vendo o boto aqui por baixo de casa?

Ao que a mãe respondeu:

— Boto? Aqui? Eles ficam na parte mais larga do rio. Eles só entram nesses furos como o nosso pra caçar ou explorar mesmo. Quantos você viu dessa vez?

— Só um, mãezinha. Esta semana, vi ele quase todos os dias.

Então, a mãe arqueou um dos olhos e fez mais uma pergunta:

— Tens certeza de que era o mesmo boto e que ele tava sozinho?

— Sim, mãe. E parece sempre querer me cumprimentar de alguma maneira.

A mãe, coitada, balançou-se para a frente e para trás, como quem leva um choque. Pegou a lamparina de latão e colocou no parapeito da janela do quarto de Nina. Bem devagar, foi fechando cada uma das folhas da janela telada, como se tivesse sido subitamente atacada por uma preocupação incomum.

Ela voltou ao interior da casa, tendo Nina a seguido. Pararam em frente a um oratoriozinho de madeira de onde dependurava um crucifixo acima e uma bíblia abaixo. Não obstante o cristianismo reinante ali, o que se seguiu foi uma reza popular e sem data de aparecimento entre essa gente.

— Ó Santíssima Trindade, que Deus pai amarra essa maldição, que Deus filho coroa de espinhos essa aberração, que o espírito santíssimo e pelos olhos de maria, olha a minha menina.

Benzeu-se e assim o fez por mais duas vezes.

Olhou a filha e lhe fez o sinal da cruz na testa três vezes e disse:

— Vamo jantá. Pega o resto de peixe e a farinha. Bati tucumã pra gente tomar também que depois tenho uma coisa pra te contar.

O jantar foi em silêncio. Só a luz parecia emitir qualquer som naquela casa.

Os pratos foram entregues à pia que repousava inundada silenciosamente atrás da casa, mais uma bacia mesmo que uma pia, pois a água que lhe entrava e saía era do próprio rio.

Lamparina na mão, d. Mayara senta na sala simples, que tem um banco comprido com pequenas almofadas costuradas e amarradas nos cantos. A sua frente, dois bancos rústicos. Ela pega o mais próximo e o arreda para o centro, onde coloca aquela luz. No outro, deixa vazio a espera de Nina.

A moça chega, toda airosa, como são as caboquinhas do Norte à flor da idade. Antes de voltar lá detrás, passa no quarto para escovar os cabelos, prender com um grampinho que tem uma florzinha e passa a colônia de breu branco, a sua preferida. Álcool e essência e só.

A mãe não se aborrece com sua demora, sabe bem que naquele rincão, os amores sempre surgem de noite à luz da lamparina na janela. Sempre sombras com muitas formas de cabocos bonitos e as estórias são muitas para a perfumada Nina, todas pintadas no negrume da janela.

A menina chega e senta:

— Pronto mãe, tô aqui, o que a senhora quer conversar?

— É sobre esse boto, minha filha.

— Ah, de novo, mãe. A senhora e todo mundo já sabem e me disseram da lenda do boto e é pra mim ficá longe dele, porque ele enamora, puxa pro fundo e filha a gente.

— É, minha filha, é isso, mas com certas famílias é isso aí e um pouco mais.

— Como assim, mãezinha? Arregalou os olhos Nina.

D. Mayara levantou-se e começou a andar em círculos em volta do banco onde repousava a lamparina, pois ela queria que a filha lhe prestasse bastante atenção. É o que sempre faz quando o assunto é sério. A pequena, que conhece bem esse código da mãe, levantou o cabelo por cima das orelhas e espiou.

— As mulheres da nossa família, assim como de algumas outras que nós não sabemos onde vivem ou quem são, sempre tiveram algum relacionamento com os botos sozinhos, desses que ficam nadando a sós pelos beiradões.

E continuou: — É uma história que minha vó me contou e disse pra minha mãe e é o porquê de vivermos sempre longe, protegendo esses botos e a gente e essa história.

— Não sei como ou quando começou, mas sempre temos filhas mulheres na nossa família. Um homem é muito difícil, até porque diz-se que quebra o encanto.

A palavra “encanto” logo botou Nina mais atenta, porque na esfera da Amazônia, encanto é coisa séria, que se compreende sem entender e cujas causas estão dispostas no incontrolável mundo místico de todos, de tudo que não se explica.

— E o que ele quer? Perguntou logo a moça.

— Conversar. Respondeu de pronto a mãe.

— Como assim? Ele vai virar homem e vem aqui?

— Não, minha filha, ele fala de lá mesmo.

— Não entendi nada.

A mãe retomou:

— Parte da história desses botos que pouca gente sabe é que eles acompanham as famílias em busca de uma companheira. Quando, em casa, uma moça faz seus quinze anos, um novo encantamento começa. O boto aparece e começa a falar e conversar com ela, mas não é uma conversa comum. É uma fala que só aquela moça entende. É poesia.

— Como foi com a senhora e com a vovó? Perguntou Nina.

— A mesma coisa… às vezes é o mesmo boto, por vezes outro… mas cada uma tem só um boto, o seu boto. E é cada uma sozinha que entende o que ele diz. As outras mulheres da família ouvem apenas a melodia que a poesia faz e os homens, só aquele barulho que eles produzem mesmo. Os homens os matam sempre.

— Por que? perguntou assustada a filha.

— Não sei, ciúme que nem eles sabem que têm, maldade do homem… vai saber! De qualquer modo, ele tá aqui, não tem homem também e você já sabe o que ele quer. Vamos dormir.

Janela telada e fechada, Nina se colocou na rede a embalar suavemente com a ponta dos pés na parede, como sempre faz, buscando no ritmo do vai-e-vem o sono agora pintado de rosa em todos os tons que a poesia cria e brinca. Finalmente, era mulher.

Conto publicado na Antologia Histórias Que o povo Conta, Lendas, Contos & Poesias do Amazonas, do Coletivo Editorial Literabooks.

Ainda não há respostas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *