O futuro num passado do futuro…
Ante minha derradeira e definitiva partida desta vida, coloco sob esta pena a verdade das coisas que vi em meu último sonho e que nunca fui considerado louco ou qualquer coisa assemelhada. Como meu último desejo, peço a devida publicidade deste relato para o bem da humanidade, pois acredito ser a única chave que pode garantir seu destino: uma visão do seu próprio futuro.
Nada de extraordinário me aconteceu antes de dormir naquela noite. Tomei os meus remédios de sempre, verifiquei as portas e janelas, sentei-me na cama e passadas as dores de sempre deitei olhando o teto branco do meu quarto no escuro à espera do sono.
O teto foi ficando com uma cor cada vez mais clara e eu tive a impressão que começava a poder ver através dele. Era como se ele fosse ficar com um aspecto aquoso. Juro que podia ver pequenas ondulações nele, mas de uma forma tão suave que senti minhas pálpebras irem fechando devagar, devagarinho.
Então, tive um sobressalto e abri completamente os olhos.
Eu estava vendo, sim, o que era um teto, mas aquoso que ondulava e se movimentava conforme eu mexia meus olhos e que tinha um tom violáceo, muito bonito. Virei a cabeça e estava num lugar muito, mas muito maior que o meu quarto. As paredes eram do mesmo tom e forma que o teto, sempre acompanhando o meu olhar com movimentos líquidos, como se estivesse de fato olhando para mim.
Vi silhuetas do outro lado e acima do quarto, mas aquele tipo de parede não permitia que se visse com detalhes, pois ficava o tempo inteiro se movendo para onde eu olhava. Eu pensei: “Essa coisa parece viva”.
Levantei e percebi que estava deitado sobre uma plataforma dessa coisa, mas não a sentia como se fosse líquido. Era macia e tomava o contorno do que se apoiava nela, sendo muito confortável e jamais eu havia deitado em qualquer coisa semelhante, mas ela se desfez assim que eu toquei o chão e se recolheu para dentro da parede.
Como não vi uma porta, fui me aproximando para tatear aquela estranha parede que, para minha surpresa, abriu-se ao menor toque, formando uma porta como se soubesse o que eu tinha em mente.
Vi, então, algo assustador que, para poder dar uma ideia aqui, era uma espécie de sala do tamanho de um grande campo de futebol, mas num ambiente fechado como se estivesse dentro de algo maior. Observei seres que pareciam ser pessoas e máquinas se movimentando numa velocidade acelerada, indo apressadamente de um lado para outro.
As pessoas não tinham pelos, mas tinham uma projeção na parte posterior da cabeça… uma coisa feia como um tumor e andavam como que flutuando, pouco tocando a ponta dos pés daquele chão que era também da mesma matéria que a parede e o teto, só que duro e como que envernizado.
Aquela gente caminhava o tempo todo para as camas que lá estavam aos milhares e deitavam-se com máquinas à volta. Aproximei-me dos que estavam mais perto para perguntar o que era aquilo tudo quando uma máquina me interpelou soando um alarme suave e dizendo: “Atenção! Ruptura de espaço-tempo, ruptura de espaço-tempo. Área 37, setor 14”
Os que lembravam seres humanos não conseguiam me ver ou ouvir, mas uma espécie de máquina maior e de cor diferente se aproximou e começou a falar comigo, quero dizer… a coisa começou a falar dentro da minha cabeça:
— Não tenha medo.
— Não estou com medo.
— Você é parte de uma anomalia espaço-temporal que o deslocou de seu tempo e o lançou alguns milhares de anos no futuro. Isso tem acontecido por conta das alterações espaciais provenientes de um buraco-negro próximo e cuja causa ainda desconhecemos. Na verdade, seria mais certo dizer que o futuro é que foi arremessado ao passado de uma pessoa: você!
— Eu estou aonde, então? Na terra?
— Sim, espacialmente no seu quarto, mas temporalmente numa outra era.
— No seu tempo, o planeta ainda possuía recursos para sustentar a humanidade. Só que chegou um momento em que a humanidade não poderia mais ser sustentada. A Terra continuaria, mas nós não. Para não morrermos, nós conseguimos recobri-la com um organismo vivo que tem parte do nosso DNA e é praticamente uma simbiose conosco. Se ela morrer, nós morremos e vice-versa. Foi o jeito mais seguro de manter a Terra. Onde você está agora é apenas uma das milhões de instalações de transferência.
— Transferência? Transferência pra onde?
— Quando conseguimos esse equilíbrio simbiótico “homem-planeta”, a humanidade começou a tentar descobrir meios de não morrer. Ajustamos nosso DNA até o limite da existência de nossas células e chegamos mesmo perto de viver mil anos, mas ao continuar nos reproduzindo isso provocou um novo desequilíbrio desfavorável aos recursos do planeta. Não conseguimos colonizar outros planetas e logo descobrimos que para esse excesso populacional se manter, o planeta precisava equilibrar o tamanho da população que entendia como uma parte de si mesmo, então a Terra começou a absorver a tal parte: nós.
— A terra começou a comer gente?
—Sim, DNA compartilhado. Lembra?
— Isso é horrível, o que foi feito?
— Horrível, mas necessário. Bom, acabamos precisando de um jeito de tirar o nosso DNA de circulação, mas continuar vivendo.
— Então, transferência aqui significa colocar nossas almas num outro corpo?
— Quase isso. O que você chama de alma, aqui é chamado de Impressão Cerebral Consciencial. Em sua época, cada pessoa possuía mais de oitenta bilhões de neurônios com cada um podendo ter mais de mil conexões, o que era um mapeamento individual para cada pessoa. Com interferências genéticas e nossa própria evolução, neste agora, que seria para você o ano quatro mil e duzentos e três, tais número mais que duplicaram. Chegamos ao que pode ser chamado de autociência.
— Autociência?
— Sim, uma consciência autônoma, individualizável e que se autoconhece em qualquer corpo preparado para isso.
— Uma imortalidade…
— Quase lá… porque se houver perda de dados do mapeamento feito pelo fluido planetário por qualquer razão e a identidade for perdida será o que aqui chamamos de uma verdadeira morte.
— Então, a morte ainda existe?
— Sim, não se sabe ainda o porquê, mas é ainda uma necessidade em nossa espécie.
— E como é feita essa transferência?
— Venha aqui e veja. É mais fácil ver do que explicar.
Fomos então até uma mesa recém-feita pela matéria que eu agora sabia era parte do planeta e da humanidade. O ser chegou, deitou e a tal matéria cobriu-lhe a cabeça e tudo o que eu ouvi foi um último longo e forte suspiro por parte daquele ser. Logo, naquela massa translúcida em sua cabeça alguns pontos começaram a brilhar bem fraquinhos, depois começaram a se ligar a outros pontos como uma rede que acendia e eram tantas ligações que logo aquele “capacete” todo ficou com uma luz forte e muito rapidamente toda aquela claridade saiu e entrou pelo fluido planetário em uma das máquinas que parecia apagada e que, tão logo recebeu a descarga, começou a funcionar com outras máquinas em volta operando em conjunto. O corpo, agora inerte e sem vida, foi gradativamente tragado pelo fluido.
— Uma vida se encerra aqui, mas continua aqui. – disse meu interlocutor olhando do corpo para a máquina recém-ligada.
— Então é isso. O futuro é ser parte planeta e parte máquina?! Isso é terrível, é um pesadelo. – Disse-lhe completamente atordoado com aquela louca visão do nosso futuro e acreditando que perderia logo o juízo.
Aquela máquina se aproximou e projetou uma luz suave em meus olhos, dizendo:
— É, de fato, um pesadelo. Acorde!
Abri os olhos e vi o branco estático de meu teto. Eu me percebi olhando ao redor e a esmo para as sombras e para a luz do dia que lá fora já se apresentavam há algum tempo.
Finalmente, encerro este meu relato, pedindo aos que leram até aqui esses meus prováveis devaneios que o levem adiante e o mantenham como memória futura de uma possível história humana.
Publicado originalmente na coletânea Para o Bem ou para o Mal: o Futuro, da Editora Persona, 2021

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