E existem?
Das lembranças as quais tenho maior afeição há uma do meu avô em seu sítio, situado algo perdido entre os municípios de Bagre e Oeiras do Pará, na mesorregião do Marajó. Uma região rica em vegetação alimentada pelos rios que fecundam ou drenam inúmeros igarapés e o chão daquela gente simples e pobre do local, como vô Laudelino.
Quando eu ia lá, achava chato a quase total ausência de eletricidade que só tinha para as lâmpadas e a geladeira. As vozes de fora chegavam pelas visitas ou pelo rádio de pilha da vó Berenice, a berê. Eram poucos dias, mas a minha meninice esticava o tempo para além da simples saudade de casa, pois era recordação da cidade mesmo, daí eu ganhava um bilhete para a terra do tédio.
Vovô não era bobo, nem cego ou trouxa. Logo, sacou a apatia que eu fingia não ter por estar sempre sorrindo: — São os teus olhos que te traem, meu filho!, dizia. E um dia falou para eu ir na varanda à tardinha, onde ele sempre estava fumando seu porronca e tomando um tiquinho de cachaça.
Após tomar o banho da tarde e um lanche, lá pelas cinco horas fui encontrar meu avô na parte da frente da casa, um pátio pequeno com alguns vasos da vó. Lá, ele se balançava numa cadência que emprestava uma harmonia que era própria do lugar: um ritmo lento e permanente. Por minha vez, eu me recostei na cerquinha de madeira que guardava a entrada da casa e o cumprimentei:
— Oi, vô!
— Boa tarde, meu filho! Respondeu, continuando:
— José, eu sei que pra moçada dos dias de hoje ficar no mato, como dizem, num interior do interior, pode ser muito chato, sem muitas aventuras e sem ninguém pra brincar ou jogar…
— Não, vô, não é que eu não goste daqui… — interrompi meu avô, o que era uma das poucas coisas que eu não devia fazer e ele logo me cortou e em me repreendendo disse:
— Aqui não se interrompe ninguém! Quando um burro fala o outro baixa a orelha, ou algo assim. Não disse que você não gostava, disse apenas que podia ficar chato.
Acenei com a cabeça, concordando.
— Hoje, quero te contar uma história minha, quando tinha a tua idade, mais ou menos, e que ocorreu aqui mesmo, neste mesmo sítio onde nasci, cresci e provavelmente morrerei nos ares quentes e úmidos desta nossa terra.
— Se é lenda, vô, eu conheço um monte que a vó conta.
— Ah! Vampiros!!! — atalhou o vô dando um salto em sua cadeira de balanço e, portanto, dando um susto em mim. — Você certamente já ouviu falar disso. Toda a sua geração com esse cinema e a televisão sabem bem o que é um vampiro.
Arregalei os olhos mais do que quis aparentar, mas a surpresa foi bem forte mesmo.
— Vampiros, vô? Aqui, neste bur….
— Sim, neste buraco, sim. Por que não? Não te disse que era uma aventura minha?!
Eu lentamente escorreguei da cerquinha de madeira e fui me sentar perto dos pés do velho que, acompanhando aquela minha velocidade, acendia seu cigarro de palha, tragava o peito cheio e soltava a baforada enquanto olhava através dela como que a procurar um ponto de partida em um tempo passado.
— Aqui as coisas sempre foram as mesmas que você vê agora. Dormíamos cedo e levantávamos antes do primeiro raio de sol. Vivíamos do que produzíamos, seja animal ou vegetal, e de tudo isso do sítio que sempre precisamos cuidar.
— A primeira notícia de que havia algum problema veio da casa do Dr. Tonico, lá pra cima do igarapé que tem nos fundos daqui. Ele veio pessoalmente me fazer algumas perguntas. Ele perguntou se os meus animais haviam sofrido algum tipo de ataque, algum pequeno sangramento ou algo parecido.
— Eu disse pro dr. Tonico que não havia percebido nada disso, mas que ficaria de olho e perguntei o porquê daquilo. Aí, ele me disse que nas terras do seu Gera… você conheceu o neto dele, né?! Pois é, lá nas terras dele, depois das do doutor, houve um ataque de algum animal, algum bicho que feriu os animais no sítio dele.
— E como eram esses ferimentos? — perguntei mostrando um interesse genuíno pela história agora.
— Eram como pequenos arranhões ou cortes na pele dos animais, isto eu fui lá e vi os cortes e um pouco de sangue, pois na descrição que o doutor deu havia sangue por perto. O mais estranho foi que não encontramos bicho nenhum junto aos animais do seu Gera. Foi tudo revirado. Era estranho, muito estranho.
Comecei a olhar no lusco-fusco os cantos do jardim em frente à casa se vestindo de sombras e imaginei os monstros sugadores de sangue que tinha visto nos filmes e séries. Estremeci ao pensar que olhos que me viam no escuro poderiam agir sob aquele manto escuro da noite.
— Então, o seu Gera tomou lá as suas precauções: trancou os animais à noite num curral cimentado e telou todas as aberturas possíveis. Parece que funcionou, pois não encontrou as tais marcas e o sangue perto de nenhum animal no dia seguinte.
— Só que daí veio novamente o dr. Tonico conversar e perguntar se aquilo lá teria acontecido por aqui. Eu disse que não, que tava tudo bem. Ele me encarou e com aquela voz de taquara que tinha e disse: — O problema agora foi na minha terra, tem feridas nas patas do meu gado, fora o sangue perto do local.
— Conversamos sobre a possibilidade de ser uma doença nova, como gripe ou resfriado que passa de um pro outro, sabe?! Mas como tinha marcas nos animais de onde o sangue saiu, fomos lembrando de tudo que é bicheira que esses bichos pegam, mas nada, nadica de nada lembrava algo assim. Era um mistério.
Vovô parou assim que viu o porronca apagado. Lambendo o lado que ia à boca, acendeu novamente e recomeçou:
— O problema, meu filho, é que aqui a sabedoria do povo é a soma do que cada um sabe. Então, começamos a falar com outras pessoas e novas explicações foram surgindo: quer era alma penada marcando os animais; que era o chupa-chupa que já tinha atacado em Vigia; que era um verme da terra, que saia, chupava os animais e voltava pro solo e por aí vai. Tudo tinha a mesma solução inicial: reza e benzimento.
— Como o seu Gera tinha resolvido o problema dele trancando os animais e boas almas foram até o dr. Tonico fazer as ditas orações, ele decidiu também trancar os animais, mas sobre um chão de terra batida. A gente não queria saber se era algo de fora, mas vindo de debaixo da terra.
— E aí, vô, como ele se saiu? O que aconteceu? — perguntei sempre olhando de esguelha para os cantos e tentando ver, agora no escuro, qualquer coisa no breu do jardim.
— Aí, no outro dia, veio me avisar que tinha funcionado e ria dizendo que se fosse assombração teria atravessado as paredes. E se fosse do chão, não devia gostar de lugar fechado. Quando saiu, deu um aviso de que eu deveria fazer o mesmo, só por precaução.
— E eu não fiz nada, sabe?! Porque a casa do dr. Tonico é mais distante daqui do que a dele pro seu Gera. Eu achava que o problema devia estar por lá. Comecei a desconfiar de que era um bicho que andava por aquelas bandas.
— Passaram três dias e quando a tua vó veio abrir a porta pra passar a vassoura aqui, ela levou um susto e viu, do lado daquele cachorro que a gente tinha, o babau, sangue na pata, na orelha dele e no chão, bem aí onde estás sentado.
Dei um pulo, passei a mão agoniado pelo chão e me arredei o que pude pra junto do vô, pois fiquei bem impressionado de estar fisicamente no meio do espaço da história.
— Tranquilo, meu filho. Não há mais nada aqui. Porém naquele dia, fui ver os animais e nossa vaca também apresentava um corte pequeno na pata acima no casco e um pouquinho de sangue em volta. Então o que quer que fosse passou a atacar aqui também. Eu fiquei desnorteado, pois atacou em dois lugares.
— Então, resolvi ir até o centro da cidade falar com quem eu achava que poderia saber do que se tratava. Falei com o farmacêutico, o dr. Júlio, que me contou as duas histórias que ele conhecia e que ouviu na capital e que se parecia com isso. Uma eu já contei e era o do chupa-chupa em Vigia e Colares, mas esse todo mundo via, porque eram umas naves com um raio que tirava o sangue das pessoas; a outra era dos vampiros, criaturas amaldiçoadas por Deus a vagar com sede de sangue das pessoas e dos animais e que era preciso um tre-lê-lê danado pra matar.
— Quando eu perguntei se tinha como saber quando um vampiro atacava, ele me disse que eles faziam dois furinhos no pescoço e sugavam o sangue e, se a pessoa não morresse, se transformava em um outro vampiro. Daí, pensei que se fosse um vampiro, meu filho, devia ser muito chinfrim porque deixava uma marca pixixita e ainda deixava sangue pra trás.
— Bom, como não tenho onde trancar os animais, botei o babau pra dentro e me pus a vigiar da janela o cercado das vacas. Levei a espingarda, a velha fumaça, junto comigo para o caso de ver alguma coisa.
— O senhor caçou vampiro, vô? Perguntei ansioso quando percebi que seria o único da turma com um caça-vampiros na família e isso era muito legal.
— Pois é, meu filho, mas não usei nada que aquele farmacêutico disse pra eu usar. Imagina: alho, estaca pra fincar no coração e a luz do sol. Achei uma bobagem! Preferi ainda confiar na velha fumaça.
— E o que aconteceu? Perguntei logo.
— Nada.
— Nada?
— Sim, passei a noite acordado, fiquei distraído com os animais que passam por aqui: as corujas, os morcegos, o esturro de uma onça ao longe e o vento.
— E quando amanheceu?
— De novo fomos atacados pelo maldito. Tinha sangue nas vacas.
— E o que foi feito?
— Ora, pedi ajuda ao dr. Tonico. Pedi para levar as vaquinhas pra lá e deixar uma só. A que tinha sido atacada duas vezes que eu ia fazer plantão perto dela, lá no curral.
— Então, de noitinha, mais ou menos neste mesmo horário aqui, eu fui pra lá. Fiquei do lado da leitosa, uma vaquinha malhada que a gente tinha naquele tempo. E lá aguardei.
— Puxa, vô, eu ficaria morrendo de medo.
— Que nada, filho! Quando temos que lutar pelo nosso pouco, Deus dá força! Depois de um tempo, comecei a ouvir um barulho muito baixinho e um movimento no chão. Uma coisa vinha andando de forma meio desengonçada, como se tivesse uma capa. Não se arrastava, ora andava em duas patas, ora dava pequenos pulos. Achei que fosse algum tipo de rato, mas tinha algo diferente no focinho. Dava pra ver porque deixei a luz de trás acesa.
— O que era, vô? O que era?
— Um bendito de um morcego. E não era tão pequeno assim. — vovô fez um tamanho com as mãos e não parecia grande também.
— Pois é, eu vi aquela coisinha se dirigir para a vaca deitada, e encostou suavemente próximo ao casco e ficava movimentando aquela cabecinha e as patas da frente.
— O senhor deitou fogo, então.
— Como meu filho? Eu ia acertar a leitosa em cheio. Resolvi esperar pra ver onde ia dar aquela coisa. Algum tempo depois, o bichinho se afastou e dando um salto voou e desapareceu na escuridão.
— Fui lá pra confirmar. Era ele mesmo que causava os estragos e, como voava, não deixava rastros pelo chão, mas só algum sangue.
— Na noite seguinte, fiz a mesma coisa, só que desta vez eu o peguei com um saco de pano grosso enquanto se alimentava da leitosa. Ele era bem rápido.
— Quando amanheceu, fui primeiro ao farmacêutico, que disse nunca ter visto um morcego daquele. Eu levei o animal num saco a mais para a luz não entrar, pois dava pra ver que ele se incomodava com ela.
— Então, fui na maior autoridade que conhecia, o médico da prefeitura, que me pediu para ficar com o morcego para estudar e saber do que se tratava. Mas adiantou logo que era melhor resguardar o gado, as aves e os cães porque nunca tem só um e era provável que tivesse um ninho. E com essas informações voltei para contar ao dr. Tonico e ao seu Gera.
— Nem preciso dizer a solução sugerida pelos dois de imediato, né?! Assim que descobrir o ninho, matar todos; enquanto isso não acontece, pensar em matar todos os morcegos da área, só por precaução.
— Mas vô, não era só um tipo de morcego?
— Sim, mas se tem algo que aprendi na vida foi que as pessoas quando ameaçadas são os animais mais perigosos. Daí, pedi para não se fazer nada, até porque com os nossos bichos guardados não estava havendo novos ataques.
— Passados dois dias, o dr. Leandro veio aqui em casa, com o bicho numa jaulinha dependurado de cabeça para baixo e que, de vez em quando, erguia a cabeça para farejar o ar e a escondia de volta.
— Mandei chamar então os dois sitiantes vizinhos, o Dr. Tonico e o seu Gera, para ouvir o que o médico tinha a dizer.
Neste momento, fomos interrompidos porque a vó queria saber se queríamos jantar, mas meu avô respondeu por nós dizendo que a história iria terminar logo e daí a gente entrava.
— Então, como eu estava dizendo, meu filho, o dr. Leandro começou nos informando que aquela espécie era um vampiro dentre os morcegos hmmm…. ou morcego vampiro, acho que foi isso que ele disse.
— Ele explicou que é uma espécie que se alimenta do sangue de animais e os de fazenda são mais fáceis pra eles. Ele nos mostrou a carinha do bicho. Não achei nada bonito, mas foi interessante. O danado tinha uns dentinhos da frente bem pontiagudos e uma fenda no lábio de baixo para lamber, e não chupar, o sangue.
— A gente perguntou por que a ferida não fechava e ele disse que esses animais tinham uma química na saliva que evitava isso e que é em parte responsável por ter sangue onde ele atacou.
— Aí, ele confirmou que devia haver uma colônia perto, que podia ser pequena ou grande, mas achava que seria de poucos morcegos por enquanto, pois não se tinha registro de outro ataque ainda. Só que o perigo era os animais adoecerem e os humanos também, se atacados.
— Então, decidimos achar a tal colônia e matar tudo, pois até pra mim pareceu razoável. Eu tinha que defender meu gado e a gente, né?!
— Mas vô, como vocês iriam diferenciar um morcego do outro. Vocês iriam acabar com outras espécies, que são muito importantes. — objetei de pronto.
— É? Perguntou-me levantando ironicamente uma sobrancelha.
— Sim. Respondi.
— Eu sei, meu filho, o doutor também explicou isso pra gente. Há espécies de morcegos que caçam insetos, fazem a polinização e distribuem sementes na mata. Seria muito ruim pra floresta fazer isso da nossa cabeça, assim.
— O doutor disse ainda que sempre há gente que procura esses animais pra estudar. Lembra que na saliva tem uma substância que permite o sangramento? Pois é, isso pode ser usado para fazer remédios. Ele propôs, então, que a gente encontrasse o ninho e a colônia, capturasse o que pudesse para enviar a um centro de pesquisa que ele conhecia e destruísse o local pra ver se os que sobrassem se afastariam daqui.
— Logo, fizemos assim: contratamos três mateiros conhecidos que, depois de dois dias, disseram que tinham achado o ninho numa tapera abandonada que sempre teve mato adentro. Pegamos redes de malha fina e umas gaiolas de metal cobertas e fomos até lá. Pegamos vários morcegos iguais àquele, do mesmo tipo, o vampiro, tinha até fêmeas e filhotes também. Depois tratamos de derrubar aquele casebre velho já pro final da tarde.
— A gente entregou os bichinhos pro doutor que, ao vir agradecer a gente, disse uma coisa que eu não esqueci: — O morcego quase sempre é afastado de onde naturalmente vive pela destruição que nós mesmos causamos.
— Então, no final das contas, a gente é culpado?
— Ah, meu filho, entre homem e animal, a culpa é sempre daquele que pensa, acho, né?!
— Vamos entrar que se continuarem a destruir o ambiente deles, eles vão voltar, com certeza.
— E não tem mais morcegos vampiros aqui?
— Vai saber…. e vê se cobre bem as pernas pra dormir, viu?!
E com essa última, meu vô não perdeu a deixa pra me colocar um tiquinho de medo. Fiquei acordado a noite inteira…
… feito um morcego.
Conto originalmente publicado no livro Antologia Animais do Brasil Todo. Vol I. Do Coletivo Editorial Literabooks, 2023.

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