Um pequeno ensaio.
Homens-cidades
Existe uma humanidade-irmã à dos homens. Ela fica em uma dimensão análoga à nossa, pois ambas nasceram de um único útero cósmico, no mesmo momento caótico e evoluíram paralelamente.
Naquela dimensão análoga, na Era Crepuscular que antecede a Era das Trevas e veio depois da Era Tardia, habitam criaturas que fisicamente se assemelham conosco, mas como vivem num espaço-tempo diferente, seguiram um progresso distinto em sua organização biossocial e modo de ser: cada homem ou mulher é a concepção mais pura de uma cidade, dando origem à espécie de homens-cidade. Essa é apenas a denominação, mas há a mesma multitude de gêneros-cidades, como na nossa humanidade.
Cada homem-cidade é uma pessoa que nunca saiu de seu espaço amniótico desde quando gestado no íntimo das mulheres-cidades, mas o qual é transformado em um invólucro amniótico quando adulto, delimitação exata de sua cidade e de seu poder.
Famílias e agregações de homens-cidades formam as megacidades, as metrópoles e os corpos mais fortes: as megalópoles. Há também as conglomerações que se verá depois.
Em tal arranjo, o poder perpassa todos os agregados, mas centraliza-se como decisão nos invólucros mais antigos. Essa hierarquia pode ser quebrada, sim, mas o resultado são tristes guerras de mútua aniquilação entre dois ou mais homens-cidades como na nossa humanidade.
Dentro de cada invólucro, a autonomia dos seres-cidades é quase plena quando comparada aos indivíduos humanos e se dá por uma regra tão antiga quanto essa dimensão: a sagrada alimentação.
Cada homem-cidade nutre-se pelo sagrado cordão umbilical que absorve diretamente do seu planeta nutrientes e o ar e, inversamente, nele expele suas excretas, os quais são capturados pelo planeta que as rearranja física e quimicamente para sua manutenção ecológica, numa simbiose persistente e fundamental à sobrevivência de todos.
É uma realidade silenciosa das vozes humanas, a comunicação requer o contato dos invólucros e se dá pela propagação de sons pelos líquidos de dois ou mais falantes. A palma da mão é usada para este fim. Assim, um homem-cidade pode falar com até dois ao mesmo tempo, que poderiam, por sua vez, falar a mais dois. A comunicação aqui é o contato.
Há bens acumuláveis numa espécie de capitalismo, chamado aqui de canibal e é tão selvagem que é o maior contrabalanço ao que parecia ser uma vida mais evoluída que a nossa.
Homens-cidades devoram homens-cidades.
Assim que nascem, os invólucros das crianças-cidades ficam ligado ao da mulher-cidade que lhe originou, mas muitas os emancipam para vender aos capitalistas que os absorvem e passam a nutrir-se da parte necessária ao crescimento daquele ser, num parasitismo que só lhes faz crescer e inibe o desenvolvimento do parasitado. Logo, existem grandes homens-cidades e conglomerados que devoram o mundo, por assim dizer.
Há também movimentos contrários, chamados de eco-sociais, que pregam a ultra-liberdade, que defendem que o desenvolvimento planetário só se dará pela liberdade total do indivíduo, muito além da sua autonomia, cerrada no seu invólucro. Esse grupo traz a dissolução dos conglomerados e ordenamento das aglomerações para controle de recursos e proteção dos considerados vulneráveis.
Infelizmente, há a pobreza e miséria, males que parecem indissociáveis de qualquer espécie análaga ao ser humano, não importando a dimensão em que se viva.
O recurso alimentar, como visto, é uma forma de capitalizar o sagrado. Estruturas de alimentação que compõem os cordões podem ser transferidas de um homem-cidade para outro. Posições no relevo geográfico desta Terra alternativa, que garantem maior disponibilidade de ar e distanciamento de grandes aglomerações e conglomerados, são os principais objetos de desejo.
Tal como uma droga, os produtos comercializados vão consumindo, por sua vez, as capacidades alimentares de um homem-cidade, até que não lhe reste subsistência e morra. Os restos podem ser reabsorvidos pelo credor.
As leis variam de acordo com o número de homens-cidades existentes. Afora as regras comuns de existência, cada ser é autônomo em suas leis, formadas pelos seu juízo e executado por si mesmo quanto ao seu próprio domínio.
As leis de todos são depositadas em uma grande central e que podem ser observadas por todos, como por exemplo, ao se querer falar de algo com alguém, é de bom tom saber a regra relativa ao assunto para tal invólucro. Passam a entrar em vigor no nascimento, que são as regras da mulher-cidade geratriz, alteradas no decurso de sua vida adulta e finalmente derrogadas com a sua morte que é o fim de sua própria cidade.
Mais humano, impossível!

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