Um caroço por ano de fartura
Dilan voltou mais cedo pra casa naquele dia. Tinha saído para verificar o matapi e ver se havia camarão. Era época boa pra isso. Só que suas mãos voltaram quase vazias, pois seguravam qualquer coisa. A mãe, vendo o filho parado em frente de casa, foi logo perguntando:
— Meu filho, que cara de panema é essa? Não tinha nada no matapi, não?!
Os olhos de Dilan levantaram para encontrar os da mãe. Ele disse com uma voz bem espaçada, bem devagar:
— Não é isso, montei dois puçás no trapiche, mãe. Não vi os matapis.
E depois de um intervalo olhando tudo ao redor naquela circunspecta desconfiança do caboco ribeirinho, ele se aproximou da mãe e disse baixinho:
— Encontrei um homem. Ele estava de pé no meio do rio, sem tábua ou barco, flutuando.
— Queres levar um couro de titica, menino? Tás doente das ideias, é?! Ficaste leso? Ah, agora tenho que me haver disso! Vai logo buscar o camarão, alezado! – explodiu dona Filipa com o filho. E continuou apontado para um poster na parede da entrada da casa:
— Só Jesus fez isso. Respeita, muleque!
Dilan respondeu:
— Mas mãe, é verdade. Juro! Só que ele me disse que não era Jesus. Era o outro.
E sua situação só piorou, dona Filipa assim se embrabeceu:
— Ixi, vá-de-retro, esconjuro. Num gosto dessas conversas.
— Mãe, ele me deu isto aqui.
Dilan abriu as mãos e lá estava um punhado de caroços de tucumã.
— Ele me disse lá que cada um é um ano de fartura no rio pra gente, mãe. Assim que o ano terminar, eu jogo um caroço no campo e só no último que ele vai cobrar alguma coisa, mas não é nossa alma, não.
—Bom, se tu fez o negócio, a alma é tua. Não me ponhas nessa!
E, de fato, foram anos de fartura. E pra cada ano que passava, um caroço de tucumã era jogado no mato. Até que chegou o último e dona Filipa teve uma ideia.
— Tu não volta mais lá, vamos arrumar outro trapiche do outro lado, de acolá, pr’ali. – torceu o beiço o máximo que podia para mostrar o quão longe seria.
Só que, depois de armado os puçás. Na hora de puxar, foi um peso que veio que malinou as costas do Dilan e quando ele viu, aquele diabo foi puxado na armadilha. Dilan tomou um susto e largou pra casa.
A mãe ouviu, ficou encafifada com aquilo e disse:
— Muda de lugar, que é prezepada desse pequeno!
Outro lugar, outro puçá e o mesmo “peixe”.
Passaram pros matapis e quando iam ver: lá estava o diabo se fingindo preso na armadilha.
Tentaram todos os barrancos, entradas, gargalos e furos que encontraram e sempre, sempre o tinhoso tava lá, rindo e se debatendo como apanha das armadilhas.
Finalmente, mãe e filho tiveram peito de perguntar daquela danação toda. Ao que respondeu o malino:
—Quem disse que vocês só estão me pescando agora. O “cabuquinho” aí me pescou quando aceitou as sementes do tucumã. Agora, na última, é só a hora de me levar pra casa. É que pra essas bandas, é muito molhado e frio. Só preciso de um teto até os caroços de tucumã acabarem.
E a dona Filipa, muito saída, disse pro filho: — É, a gente leva que os caroços estão pra acabar mesmo. – ela só não sabia de quais caroços o tinhoso falava.
E foi assim que, embriocados no meio da mata, mãe, filho e o diabo, dizem, foram viver até hoje, enquanto houver caroços de tucumã no mundo.
Conto publicado na Revista Égua Literária, junho de 2023.

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