Discurso das Peles

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback

Registro

Terra Paralela 23

País: Brazilis

Registro Histórico – Discurso

Nome Adolphus Hisper – Líder da Sociedade Mundial Nazzi durante a Campanha Presidencial Mundial 2050.

Data: Terceiro ciclo lunar do sétimo mês de 2050.

(anúncio do discurso e aplausos)

(silêncio)

Boa noite a todos irmãos e irmãs cobertos.

Somos todos peles. Nascemos assim. Esse nascer igual é a única chance que temos de possuir algo valioso dado de nascença. O que nos diferencia é se conseguimos manter a pele… vestida.

A sociedade moderna de hoje divide-se em categorias de cobrimento corporal: o topo, a elite e orgulho das nações como vós que são pessoas que têm o necessário para cobrir o corpo com roupas. São selecionados entre os melhores dos melhores. A pele alva sempre foi merecedora de coberturas dadas as emanações radiantes de nossa estrela solar. Ademais, com a cobertura distingue-se o pensador líder, o eleito ou a mulher vestida, seus ombros a erguer seus homens.

(murmúrio de aprovação – AGUARDA)

Há, como em todas as espécies, degenerações do tipo perfeito, o qual começa a perder a autorização de usar a roupa. Desse tipo, parcialmente vestidos e temos muitos deles, guardam em seu sangue já a marca indelével de sua mestiçagem. Quem de nós nunca viu alguém só com as vestes de cima ou só com as de baixo, ou ainda, pior, só com os pés cobertos. Toda essa turma não tem direito além do de trabalhar direto por nós, os vestidos, em que tal convivência esperamos um mínimo de aprendizado civil por parte deles.

Apesar de termos que conviver com aquela escória, ainda temos os nus. Desprezíveis seres que ainda possuem suas peles de nascença. Sempre sujeitos ao esfolamento para a despelização, mas que são importantes em nossa sociedade, pois fazem os trabalhos que ninguém com qualquer vestimenta deva fazer. Representam um contingente expressivo, mas ainda sim, nós os exortamos a viver e, por assim dizer, permitimos que vivam. Precisamos deles. São de cor parda predominando os aspectos bestiais em seu sangue.

(PAUSA)

Agora passemos à massa que mais nos contamina e é o pesadelo de nosso imperfeito sistema por não termos ainda tecnologia para extingui-los como requer a reengenharia de nossa justa sociedade: os despelados.

(desaprovação – aguarda – PAUSA)

Ah, senhores e senhoras! Os tais despelados, algozes de nossos piores pesadelos e ralé da escória humana. Que direitos podemos outorgar-lhes se são todos iguais sem a pele dada pela natureza, mas corretamente tirada para a nossa segurança. Até em tal plebe, podemos reconhecer os menos piores entre eles.

Há os que são apenas músculos e que não precisam ser chamados mais pelo nome, mas vemos neles o tipo sexual e a força para a execução dos serviços forçados. Há ainda a sexualização e reprodução nesse tipo. Uma questão que, a meu ver, deveria ser abolida logo em sua despelização, para que a gentalha não reivindique condições de gênero e prole. NÃO! NÃO! NÃO!

Imaginem, senhores e senhoras, termos que viver com dois despelizados de sexo diferente ameaçando-nos com a sua reprodução – de onde nada de bom sairá. Ou ainda dois do mesmo sexo ou de sexo alterado convivendo… Aliás, os que são só peles também. Afinal, a roupa é nossa! É NOSSA!

(Aplausos – AGUARDA)

Agora os baixos dos baixos, poeira de nossos pés: os orgânicos e os ósseos.

(desaprovação – aguarda – PAUSA)

Os primeiros são um estágio intermediário entre os músculos e os ósseos, sendo a degeneração contínua uma condição desses seres. Sem músculos e sem o aparelho reprodutor são apenas seres ambulantes com alguma condição de discernimento. Aqui, iremos alcançar nosso primeiro objetivo que é impedir-lhes a reprodução, apesar de certos oposicionistas anárquicos ao Regime terem ideias absurdas de utilidade e progresso. ABSURDO! TRATA-SE DE VERDADEIRA SARNA PARA NOSSO POVO!

Os ósseos são o objetivo final de toda a sociedade com peles e roupas. Apenas o que merecem: esqueletos dos quais não se resta nenhuma identidade, nada que os distinga entre si. Não é a igualdade o objetivo do populacho?! Pois aí temos pilhas e pilhas de ossos a trabalharem como ossos, sem ter rosto nem gosto. Eis o final das camadas mais baixas. Quem tem que cuidar de ossos senão os cães. ISSO É A JUSTIÇA DOS BONS!

(aplausos – aguarda – PAUSA)

O meu objetivo, senhores e senhoras, minha missão divina é reduzir, esmagar e dizimar toda a identidade de alguém que perdeu a pele possa conservar. Entre nós, os vestidos, se houver daquelas inconformidades junto a nossa natureza binária, que sejam então despidos dos trajes, da pele até os ossos pela pretensa igualdade a ser experimentada com os outros. SÓ OSSOS SÃO IGUAIS!

(aplausos – aguarda – PAUSA)

Resolvida essa séria questão social, a economia seguirá firme e crescendo, pois a limpeza de nossas chagas sempre causadas pelas camadas baixas, a extinção da ralé é o enriquecimento de uma elite pronta a assumir seu destino.

Juntos somos os escolhidos de nosso povo e nossa raça: SEMPRE VESTIDOS, NUNCA DESNUDOS!  

Uma terra para homens e mulheres nascidos de acordo com seu sexo e devidamente vestidos de acordo. O RESTO OU SIRVA OU MORRA!

São esses, senhores e senhoras, os fatos que me levam a me candidatar à presidência deste Planeta Terra 23. 

(aplausos – aguarda – FIM – comprimentos)

Nota do transcritor: Adouphus venceu a eleição planetária no décimo mês do ano 2050. Em 2051, dá início à sua agenda e em dois anos daquele planeta aquela humanidade sofrem sua primeira onda de extinção.

FIM

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