Bonequinho de Miriti

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback

Existe coisa mais ingênua que brinquedo de criança?

É época do Círio de Nazaré em Belém do Pará e muita gente, eu sei, já leu algo sobre esse evento. Uma das maiores festividades religiosas do mundo em termos de duração e participação popular. Só no domingo da principal procissão que leva a imagem de Nossa Senhora de Nazaré da Igreja da Sé para a Basílica Santuário teve aproximadamente dois milhões e meio de pessoas neste ano de 2022. E olha que são quinze dias de eventos, pelo menos!

Esse patrimônio cultural da humanidade é bem mais complexo do que os destaques vistos na TV que é aquele mar de gente espremida, pagando promessa e, muitas vezes, em êxtase religioso. Por trás do evento, há toda uma cadeia industrial e de serviços que opera boa parte do ano voltada para o período nazareno.

Das indústrias, uma que certamente é destaque e tradicionalíssima do Círio é a do artesanato de miriti. Herança indígena, o miriti é coletado diretamente do pecíolo da palmeira que também é conhecida como buriti. Depois de seco, o miriti é altamente plástico, podendo ser transformado em qualquer tipo de objeto nas mãos de um habilidoso artesão que use facas, lixas, tesouras, dentre outras ferramentas. É uma atividade altamente sustentável, familiar e que gera renda.

Os brinquedos de miriti vindos do interior estão sempre muito presentes nas festividades do Círio. São de diversos tipos, desde bonecos e bonecas, casais, pássaros, fixos ou com movimentos, além de canoas e barquinhos até “gaiolas” e ferry boats muito elaborados.

Logo, ter um brinquedinho de miriti é fazer parte dessa história toda, unindo a tradição e os costumes ao deleite do brincar e do sonhar próprio da infância em um contexto religioso de muita fé e devoção.

E quem pode nos assegurar que o sinistro, o nefasto e o diabólico não profanam essa terra que se faz vigiada por romarias? E quem há de imaginar que a danação não age nos mais ingênuos dos humanos, as crianças? Pelos seus objetos de maior afeição: seus brinquedos, seu reino, seus domínios?

***

Pedrinho largava nos seus onze anos e era um moleque muito amado pela sua família. Filho único de um enriquecido empreiteiro e uma vendedora, era alegre num desatino, fosse manhã, tarde ou noite. Bastava estar acordado onde estivesse que tudo virava uma festa. Até seu carrancudo pai, quando em péssimo humor, mandava chamar o moleque para que seu pesado coração desanuviasse e o sorriso lhe estampasse o rosto.

Era a época do Círio, um dos seus dias prediletos do ano. Outubro de calor e sol intenso nessa terra equatorial, mês de muitos acontecimentos: de comer maçãs do amor feitas em tachos na própria rua, de olhar gente de fora andando e rezando, os sacrifícios e as oferendas, das manifestações tradicionais como a Festa da Chiquita e o Auto do Círio e o melhor: ganhar brinquedos de miriti.

Pedrinho ganhou, melhor dizendo, escolheu dois barquinhos e um casal que bate um socador em um pilão a partir de uma corda e um peso de argila. Não eram os maiores, mas para Pedrinho eram os melhores, pois o que contava era seu divertimento de menino sadio.

Desde que apareceu em seu campo de visão, não tirava os olhos de Pedro um homem de aparência suja, mal-ajambrado que, sentado numa esquina da qual todos desviavam, encarava fixamente a face de Pedro. Saciava previamente aquela alegria que poderia destruir. O belo sorriso constante marinava, de certa forma, um gosto pela carne do pequeno. Ele não pararia com isso até que o menino o visse também. 

E Pedro o viu.

Ele enxergou aquela coisa abrutalhada, amontada como lixo num canto e no mesmo instante sentiu um cheiro de lixo e excrementos, ouviu o zumbido das moscas falando com ele, os vermes confidenciando em suas entranhas. Finalmente, teve um mal-estar repentino e achou que iria desmaiar.

Quando, de pronto, aquela criatura levantou-se e jogou o lençol retalhado para os lados e aquela malha grossa, pesada e roída ficou de um branco puro e resplandecente tal uma seda imaculada flutuante em um vento inexistente. E o homem que se levantou foi o homem mais bonito que tinha visto, de um sorriso contagiante e olhos profundamente violetas, cabelos em um topete bem cortado, tatuagens e pulseiras nos braços trabalhados em uma camisa justa e um jeans modernos.

Sorrindo, veio na direção deles.

Pedrinho percebeu um perigo, mas os jeitos, a personalidade e uma certa malícia daquela pessoa, coisa, sei-lá-o-quê, cativava, hipnotizava e aquele homem charmoso veio a se aproximar da família do moleque de um jeito experiente, nunca olhando diretamente, mas sempre de relance acompanhando o passo a passo do grupo, tangenciando até que ficou de frente e cumprimentou:

— Oi, linda festa, não?!

— Ah, boa noite, sim. Magnífica! O Círio melhora a cada ano. — respondeu o pai de Pedrinho.

— Eu não sou daqui, mas estou encantado. — disse o homem conhecendo a curiosidade que sempre se tem das pessoas de fora.

— Ah, é?! E de onde você vem? — perguntou agora ambos os pais.

— Nada interessante. Sou de Brasília mesmo. Lá tem um Círio, mas não tem como ser parecido com isto aqui.

— Ah, eu sempre achei que Brasília emanava coisas ruins. — disse o pai e quando percebeu que o visitante ficou constrangido, porém arrematou: — mas é só dos políticos. — e riu para que se entendesse da piada.

— A propósito sou André. — e estendeu a mão, que foi apertada com firmeza pelo brasiliense. E fez as apresentações: — esta é a minha esposa Eliza e este rapagão aqui é o meu filhote Pedrinho.

Após segurar delicadamente na mão de Eliza, o rapaz se ajoelhou para cumprimentar o Pedro que, estranhando tudo aquilo, ficou parado e mudo. Quando o estranho olhou em seus olhos, algo muito complicado de entender aconteceu: pareceu que aquele homem e Pedro estavam em uma bolha negra, tudo à sua volta desapareceu, um frio enregelante subiu por todo o seu corpo, seus pelos se arrepiaram e saía fumaça de sua respiração. O panorama por detrás daquele senhor era o de uma floresta escura, com salpicos de lava que saiam por fumarolas no chão e uma coisa que ele nunca havia sentido foi pregada naquele seu alegre coração de menino: um vazio.

As sombras, em seu inferno, regozijavam com a presa bem capturada.  Agora era colocar-lhe a devida maldição e esperar para coletar os abates da sinistra desventura de Pedro. Seu repasto de almas em pleno Círio, então, estaria sendo cultivado.

O homem não falou palavra, mas Pedro o escutava em sua cabeça. Com o braço que sempre estava para baixo, ele o ergueu e mostrou para Pedrinho um boneco de miriti, muito simples, com aquela cor neutra, própria do miriti antes de pintado. Ele esticou a mão e o menino, sentindo-se arrastado num turbilhão de emoções e pensamentos que o tomou por inteiro, pegou aquele boneco e ao segurá-lo foi consumido pelo demônio ali encarnado. 

A bolha desapareceu.

A barulheira, a quentura e o movimento bateram como um martelo em Pedrinho que cambaleou para trás com o presente nas mãos. O pai o segurando e perguntando:

— O que tens, Pedro. Agradeça o presente. Foi muita gentileza, senhor….

— É André também, André Alfonso.

— Sempre é bom encontrar um xará. — o pai riu com a própria frase.

O pai de Pedro segurou mais uma vez na mão do estranho e se despedindo, agradeceu o presente que ele tinha dado ao seu filho e se foram todos para casa.

***

Ao nos encontrarmos com objetos amaldiçoados, nunca sabemos quem leva quem. Se é o dono da mão que pegou o item ou o próprio item que escolheu com quem seguir por azar daquele ou por ordem de outrem. Tudo é obscuro na magia negra. É próprio para não se ver e difícil de saber, pois a ignorância é arma poderosa sobre os que nela não creem.

As duas semanas após o Círio, Pedro começou a ter febres e dores pelo corpo inteiro. O médico da família, Dr. Castro, foi chamado e diagnosticou gripe simples, com um processo brônquico, passando remédios e um cataplasma para as noites.

Pedrinho melhorou por fora, mas por dentro sentia-se pior. Passou a ter pesadelos todas as noites e sempre acordava de madrugada olhando para a cadeira onde repousava silente o boneco que ganhou. Sua forma humana agigantava-se na parede com a sua própria sombra da luz que vinha do único poste à frente da casa.

Seus pesadelos eram sempre no mesmo ambiente em que recebeu o brinquedo, um mundo cinzento-escuro, onde as folhas sempre mortas dançavam um vento gelado, como um beijo de um lábio morto deveria ser.

Durante o dia, Pedro parecia um menino mais calado, circunspecto e soturno. Respondia as coisas de forma lacônica e se melindrava com qualquer contrariedade, quando corria para o quarto e lá ficava até dormir. A fome nem o incomodava mais.

Os pais começaram a se preocupar e resolveram, juntos, ir ao quarto do menino. Pouco entravam lá, pois a arrumadeira nunca dera queixas, mas a recusa do garoto em deixar a empregada entrar acionou aquele alerta que só os pais possuem.

Então, em frente ao quarto, bateram à porta e no silêncio que se manteve, perguntou o Sr. André:

— Meu filho, somos nós, eu e a mamãe. A gente quer entrar pra conversar.

— Não, obrigado. — foi a resposta curta e decidida.

— Mas, meu filho. Nós estamos preocupados com você.

Passos foram logo ouvidos e os dois se olharam e se prepararam para entrar, mas apenas ouviram um “click”. Pedro trancou a porta sem responder mais nada.

Dessa vez, foi a vez de dona Eliza falar:

— Filhinho, é a mamãe. Eu estou aflita com você. Você não sai mais do quarto.

— Eu tô bem. Vão embora. — foi a resposta que receberam.

O pai começou, então, a perder a paciência:

— Ô, moleque! Se não abrires, arrombarei esta porta. Dou apenas uma hora para deixares a gente entrar. — e agarrando a mulher que lhe suplicava a calma, desceram para aquela fustigante hora de espera.

Pouco antes do aprazado, ouviu-se o abrir da porta do quarto de Pedrinho, passos rápidos e uma descida bem ligeira da escada. O menino apareceu na porta da cozinha sorrindo, correndo se postou ao lado dos pais escondendo a carinha e dizendo:

— Papai, desculpa. Mamãe, desculpa. Só andava triste pelo fim do Círio, só isso. Senti como se ficasse sem amigos e sem passeios.

Sorrindo mais pelo alívio de ver o seu filho amado bem, o pai e a mãe acolheram o garoto.

— O que é isso, meu filho?! Essas coisas não se perdem. Nem amigos e nem passeio e, na ausência disso, tens a gente pra sempre.

— Pra sempre, pra sempre. — repetiu o menino olhando com um sorriso enigmático e ao mesmo tempo malicioso que os pais nunca o haviam visto dar, mas pensaram: “Bom, é o Pedrinho!”

Dona Eliza mandou a empregada subir e arrumar o quarto do moleque que, é claro, estava mais bagunçado que nunca. Procurou por travessuras que ele fazia como calçar a decoração da cabeceira com as meias ou enfiar bolinhas de gude nos bolsos das calças para atrapalharem a lavagem. Porém, fora a desarrumação da roupa de cama, o resto parecia no lugar. Com uma diferença apenas: na cadeira havia um inacabado bonequinho de miriti, sem cor, só no formato de gente e que estava em cima de um punhado de livros, como num altar. Então, dona Clara, a clarinha, decidiu nem contar aos pais de Pedrinho, afinal, “Era coisa do Pedrinho”, pensou.

O almoço foi muito alegre, com a jovialidade de Pedro recuperada, todos estavam aliviados e isto contribuía e muito para o bom humor. Ao final do repasto, Pedrinho deitou ao colo da mãe e olhando os três adultos, pediu que brincassem um pouco com ele para afastar a solidão e a falta de passeios e lembrou que o pai dissera antes: “que ele sempre os teria com ele.”

— A brincadeira é rápida, papai. Eu que inventei. Meu papel é o de fazedor de bonecos e vocês serão os bonecos. O nome é: “Bonequinho de Miriti”.

***

Pedro disse que a brincadeira era no porão, pois lá é que haveriam os materiais para fazer os bonecos a partir dos três. Seu André, dona Eliza e Clarinha se entreolharam, mas era o Pedrinho e cuidava acompanhar para que ele logo melhorasse. Apenas, seu André que disse: — Não vamos demorar, hein?! Ao que o moleque logo respondeu: — Nada, pai. É rápido.

Ninguém viu, mas quando disse essas últimas palavras, o canto da boca de Pedro desnivelou-se do resto, numa macabra careta ao mesmo tempo que uma de suas sobrancelhas arqueava-se criando uma segunda cara num mesmo rosto.

Todos desceram ao porão levados por Pedrinho que os preparou da seguinte forma: o pai e a mãe ficaram em duas cadeiras de costas um para o outro, enquanto a clarinha ficava em pé em uma das vigas. O menino pegou duas cordas de sisal e começou a amarrar os três. Seu André disse que isso era desnecessário, mas Pedro respondeu que era só pra dizer que o miriti ficava firme para ser trabalhado e que o nó era falso, qualquer um poderia se soltar se quisesse.

— Gente, peraí, só falta uma coisa. — disse pedrinho em disparada pela escada.

Enquanto esperavam embaixo, Pedro entrou em seu quarto e dirigiu-se em direção ao altar que tinha feito. Pegou o boneco com certa reverência e ao encostar nele, seus olhos reviraram-se expondo uma esclera avermelhada, doente. Sua boca torceu e retorceu num arremedo de careta, ora expondo os dentes, ora a língua arroxeada, um filete de baba caiu, longo, fino e esticado que lentamente tocava o chão. Então, tal qual ocorreu essa terrível transformação, o menino voltou ao normal e com seu bonito sorriso retornou alegre ao porão.

Ao chegar lá, tratou de acender a luz, uma luz única, amarela, mas forte e que ajudava a esquentar bastante o ambiente.

— Ah, foi buscar o seu boneco para fazer companhia. — disse seu André.

— Então, somos seus quatro bonecos! Eu vou ser a mais bonita, hein?! — falou rindo a mãe enquanto clarinha ria nervosa com a brincadeira.

O menino olhou para os três e sorrindo colocou o boneco pendurado num ganchinho e, retomando aquelas feições horríveis de antes e com uma voz gutural, arranhada e aguda como se fosse mais de uma pessoa, respondeu:

— Não, não, não. Ele é o meu modelo e vocês os meus miritis!!!

Seu André teve a imediata reação de se soltar e viu imediatamente que o nó não era falso, era corrediço, de forma que ao forçá-lo ele apertou a si e a sua esposa com mais força, então, disse para a esposa atrás dele: — Deus! Ele não está bem! — e olhando para Pedro disse com a melhor autoridade de pai que tinha: — Pedro! Pedro! Para agora com essa brincadeira!

— Meu filho. Não tem graça. Solte a gente! — suplicou dona Eliza quase ao mesmo tempo.

Clarinha começou a chorar baixinho quando se viu apertada com um nó verdadeiro. Pedro andou em sua direção e levantando a cabeça com as órbitas oculares vermelho sangue deu um risinho cínico e disse: — Começarei com você!

E foi tudo muito rápido.

Quem já viu um bonequinho de miriti, tem uma sinistra ideia do que iria acontecer. Esses brinquedos são simples: não têm mãos nem pés, só tocos, não têm orelhas e nem maçãs do rosto, são retos. A imaginação das crianças é quem cria esses detalhes, mas aqui, onde o mal usa da imaginação para corromper a brincadeira, é difícil até de descrever.

Pedro rapidamente pegou a afiada e grossa tesoura de poda do jardim e com seu jeito infantil, cantarolando uma modinha com sua própria voz, começou a cortar os dedos de Carinha em suas juntas, todos os dez das mãos. Clarinha se debatia, gritava, berrava, vomitava e desmaiava. E quando isto acontecia era como se uma força presente e invisível a acordasse para continuar sofrendo.

Algo parecido acontecia para quem estava de frente para Clara, que era dona Eliza: choro, desespero, vômito, desmaio e rápido despertar. Seu André tentava se soltar e gritava para o filho parar. O “tlé-tchock” do podador simplesmente não parava.

Um breve silêncio se fez e Pedrinho sumiu na escuridão dos fundos do porão. Os dedos de clarinha estendidos em volta dela com o sangue que escorria em suas roupas e pingava ali mesmo abaixo dos tocos que ficaram nas suas mãos. A moça apenas emitia um ganido bem baixinho.

E de repente Pedro entra correndo e gritando com o machado para cortar árvores e girou-o decepando o pé esquerdo de Clara que saltou para longe do corpo. A mulher reagiu como se tivesse levado um choque e um rápido segundo golpe retirou o outro pé, arriando a moça ao chão.

A criatura que habitava agora em Pedro disse-lhe ao pé do ouvido de Clara: — Terminaremos depois. Falta o arremate, meu miritizinho!

E se voltou aos pais.

O machado pingando sangue e tremendo em suas mãos, o rosto transformado e uma respiração pesada, ele olha de um para outro e diz ao seu André: — Não tenho uso disso em você, paizinho! — falou de forma zombeteira e continuou: — O bonequinho menino tem pezinho às vezes….

E num movimento rápido descreveu um arco acima da cabeça e enterrou o machado fundo nos pés da mãe, decepando os pés rente à perna, de onde esguichou um sangue forte e pedaços de ossos voaram longe. A mãe deu um grito seguido de um desmaio, assim como o pai e ambos baixaram as cabeças desacordados.

Dizem que quem tem dor não sonha. Sonha, sim, só não lembra. Na vida e na morte, os que se amam podem sonhar juntos.

Seu André e dona Eliza se viram num lugar frio, cinzento e gélido na frente deles havia uma grande cadeira onde se sentava uma sombra com uma silhueta disforme que, ao olhá-los, gargalhou insanamente e disse numa voz que já tinham ouvido antes, a daquele homem que deu o boneco de miriti para o Pedrinho.

— Ora, ora, Pedrinho foi um sucesso, afinal. Nem todos os anos conseguimos alguém no Círio. O filho de vocês é uma d-e-l-í-c-i-a!!!! — falou, lambendo os lábios de forma indecente.

Ambos estavam mudos, apavorados. Ele mostrou um espelho em que era visto pelos olhos do boneco dado ao Pedrinho o que ele ainda fazia no porão: com uma alegria infantil, cortava os cabelos, as orelhas e o nariz da pobre Clara, dando-lhe um aspecto grotesco de boneca de miriti.

A entidade desfez a imagem e começou lenta e ritmicamente a estalar os dedos, olhando para os pais, que mais pareciam trapos de gente pela tristeza, assombro e medo; e falou:

— Sim, eu sou aquele que deu o bonequinho de miriti para o seu filho no Círio. Ele podia ter me recusado? Sim. Talvez o que lhes doa mais é saber que ele me aceitou e agora somos a mesma carne neste e em outro mundo.

— Troque-o por qualquer um de nós, por favor, imploro! — rogou seu André desesperado para salvar o que lhe era mais importante, o filho. 

Ajoelhando-se ao lado da mulher, implorou:— Eu assumo tudo lá, assumo o que ele fez e venho pra cá quando quiseres, por favor…

Ainda sem parar de estalar os dedos, a coisa o olhou com alguma curiosidade e disse:— Vocês fazem sempre essa proposta. Não! Até porque já acabou e tenho certeza… vai doer.

O estalar dos dedos foi intensificando à medida que a imagem do lugar e daquela coisa foi sumindo, seu André e dona Eliza foram acordando ainda ouvindo aquele estalar… mas era o Pedrinho cortando os seus últimos dedos das mãos.

Em agonia, ainda viram o filho pegar a faca e falar: — Agora, só arrematar essas caras.

E um último grito foi ouvido na casa.   

Conto originalmente publicado naAntologia Horror CELB vol. I Bonecos Amaldiçoados. Coletivo Editorial Literabooks, 2023.

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