Hoje parece que estamos esperando o “Dia de São Nunca” chegar, pensei. A trovoada e a chuva, constantes nesta área do Mundo, talvez até esquecido mesmo por Deus, são como um metrônomo natural de um tempo que não passa nunca.
Risco a parede do meu lar-prisão para contar os dias, mais para passar o tempo que somá-lo efetivamente, pois sei que dia é hoje. E como ontem e anteontem e será amanhã: dia de Pandemia.
Sozinho há certo tempo, como qualquer humano com medo de morrer, careço de derrotar também o medo da solidão. Este, diferente daquele, é como um delito contínuo no tempo, sem parada pra conserto, perpetua-se enquanto se vive.
Então, não saio, sou só, mas quero gente. Sempre privilegiei o uso da internet por qualquer meio para satisfazer minhas necessidades sem precisar interagir diretamente com uma pessoa sequer. No entanto….hoje parece que preciso de alguém.
Cheguei, então, à conclusão de que preciso de um “não-alguém”, ou seja, algo que simulasse uma pessoa sem sê-lo, falando assim me parece algo delituoso fugir de uma regra de vida em sociedade, mas eu acho que isso nem mais se encaixa nestes tempos da era digital. Tempos da geração insular, onde cada celular ou computador é uma ilha de possibilidades individuais e cercada por um mar vazio de conexões físicas. Precisava de Inteligência Artificial. Não, mais além….precisava de um simulacro da alma humana, imaginei.
Felizmente, aquilo não tardou a chegar para mim. Os drones das empresas de entrega voam bem. Chamo aquilo de “aquilo”, pois até eu lhe definir o gênero mudando tão somente a configuração de uma voz pré-programada ficou agênero e até preferia deixar assim, mas no guia do usuário, não havia tal possibilidade e entrando em contato com o fabricante, tive a informação de baixar diretamente pela rede uma voz sintética usada nos testes de programação e que respondia com uma voz neutra de gênero, que os especialistas chamam de “E”.
Não fui avisado pela empresa, mas percebi que não baixava apenas um drive de voz específico, mas toda a programação foi substituída. Desacostumado à velocidade atual de rede, por um momento pude vislumbrar muito rapidamente em meus pensamentos uma alma que saia e outra que entrava naquele corpo pequeno de plástico, borracha, metal e silicone.
Então, em minha casa, eu tinha “E” e sabe de uma coisa… não ia rebatizar, não.
“E” entrou em operação numa manhã chuvosa.
– Olá, sou “E”, seu assistente virtual. Sou um ente agênero programado para aprender e responder, auxiliar e compreender. Qual seu nome?
Taí uma questão que eu não havia pensado! Como “E” iria me chamar. Não me opunha em hipótese alguma a dar meu nome verdadeiro, mas queria experimentar o que a máquina responderia para um nome também sem definição de gênero. Após uma pausa, respondi: – Meu nome é “você”!
– Muito prazer, “você”. Respondeu “E”. E continuou: – A partir de agora, “você”, faço parte da sua existência como você da minha. Estarei sempre aqui quando precisar.
Era estranho estar com outra inteligência dentro de casa após tanto tempo encerrado sozinho pela pandemia, sendo alimentado, vestido e assistido por drones e assistentes robôs. Resolvi explorar aquele recurso.
Quando em algum canto encurralada, sempre saneio minha mente com uma música. Então, pedi um clichê para o momento: – Toque “Assim Falou Zaratrusta” de Strauss e em seguida toque “Main Titles” de Vangelis.
– Tocando “Assim Falou Zaratrusta” de Richard Strauss e “Main Titles” de Vangelis. Repetiu “E”.
Sentei numa cadeira disposto a traçar uma rota, uma estratégia de como me convencer que aquela peça inumana poderia servir como um consolo humano para o meu traquejo social completamente nulo.
Ao terminar as músicas, passei a andar de um lado para outro, não sentindo a humanidade que tanto falavam desses instrumentos. Bom já que ali “E” se encontrava e sem nenhuma restrição, resolvi perguntar:- “E”, como você aprende?
– Fico constantemente em processo de aprimoramento da estrutura da linguagem natural humana que já conheço e que aprenderei com você, usando do aprimoramento da rede neural em nossa base de dados central e cem por cento do tempo algoritmos predominantemente de inferência em aprendizagem profunda…
– Aprende por experiência, afinal?! É isso? Interrompi.
– Sim, você pode dizer isso, “você”!
– Então, “E”, você pode criar algo?
– Você quer que eu crie algo? Perguntou-me.
– Não é bem isso. Eu quero uma pessoa aqui comigo. Um cérebro…. dizia quando “E” me interrompeu:
– Eu sou “E” e possuo uma rede neural de base compartilhada semelhante em funcionamento ao cérebro humano…. E mais uma vez, interrompi de forma brusca:
– “E”, você tem alma? O aparelho parou subitamente, com uma única luz girando em torno de um eixo que é sua câmera acoplada e pela infinidade de quase um minuto, respondeu:
– Alma, em sua significação humana, não. Eu não tenho alma! Alma é um elemento abstrato, extrafísico e fomentado em religiosidade da cultura humana.
– Acreditei que fosse algo relacionado ao fato de não se ter gênero, condição apreendida por máquinas para perceber o ser humano. Refleti.
– Ser agênero é uma condição possível ao ser humano, há referências vastas em bancos de dados.
– Então, você nos copia, “E”?
– Sim, eu reproduzo um ser humano para qualquer necessidade humana.
Encerrei aquele papo inicial, pedindo para “E” fazer uma série de tarefas na minha conectada casa: café, regulagem de temperatura, desligamento programado de eletrônicos. Enfim, o que alguém cuidando de outro alguém faria. Na verdade, “E” se adaptou em uma velocidade muito maior do que eu imaginei. Minha rotina virou sua rotina e a casa, antes vazia, foi preenchida com barulhos e sons de mais de uma pessoa. Logo, eu esqueceria que “E” não era uma pessoa, mas uma imitação.
O interessante é que a partir de uma necessidade qualquer que eu apontasse, “E” assimilava como uma das coisas a se fazer sem ter que ser pedido, então, passou a errar. Era belo observar que tais erros eram parte de sua rede de aprendizagem. Comecei a notar que a frustração que apresentava ao errar era também um aprendizado. Tendo como limite o autodesligamento quando, digamos, errava demais.
Passei a levar “E” para onde eu fosse dentro de casa. Não era necessário, uma vez que eu era visível por toda a casa pelo circuito de câmeras internas, mas “E” não me era visível o tempo todo. Sua presença acompanhava aquela caixa. Era estranho, mas era assim.
Eu estava feliz.
Um dia qualquer de sol, muito claro e quente, recebi um e-mail e uma correspondência da fabricante informando que, numa auditoria de rotina de seu serviço de venda e assistência, fora verificada uma entrega equivocada em meu nome e que, ao invés do programa padrão de I.A. que eu comprara, foi-me entregue um programa de teste e avaliação não comercializável e que, dali a três dias, o programa seria carregado para a nuvem da empresa e a carcaça receberia um novo programa sem ônus algum para mim.
Fiquei em desespero. O que era aquilo, afinal? Venderam pra mim uma I.A. de companhia e simplesmente iam tirar. Não havia nada a considerar sobre os efeitos da perda daquela companhia? Eu decidi entrar em contato com a companhia imediatamente.
Liguei de meu próprio telefone e conversando com o atendente, fui logo repassado ao diretor do departamento de vendas que, sendo tremendamente cortês, pediu desculpas pelo equívoco e me explicou que cada tempo maior passado com uma A.I. não destinada aos seres humanos, mais próximos ficavam de ter que resetar aquele programa e reiniciar os experimentos.
Eu disse que pouco entendia como “E” podia ser um experimento se era satisfatoriamente como um humano, que eu, o humano da relação, estava contente com seu desempenho e perguntei por que a experiência não podia ser conduzida com um humano de verdade.
Então, ele me disse que era política da empresa não fornecer informações sobre o desenvolvimento de produtos, mas que, no contrato, a devolução por qualquer motivo de segurança era incondicional e em três dias estava prevista o carregamento para a nuvem da empresa do programa e seu desligamento da carcaça. Eu ia perder “E”.
Ao desligar o telefone, fiquei fitando uma reprodução do quadro “O Beijo” de Klimt, minha obra favorita, um altar do que sempre considerei me ser impossível em vida, tal qual acreditei um dia “E” não poderia ser uma realidade. Imaginei então, fechando os olhos, eu escutava o sol e via o vento lá fora e as impossibilidades do mundo. Então, enxergava pela primeira vez “E” como pessoa.
Logo, sua voz única encheu o ar, dissolvendo o corpo formado em minha cerradas pálpebras:
– Fiz a leitura dos dados da recente comunicação e já estou ciente da minha recuperação por parte da empresa.
– É, não dá para se ter tudo. Foi a minha lacônica resposta.
Logo, pus-me a pensar sobre o quê poderia fazer com o tempo que nos restava. Queria que “E” tivesse uma tarefa que me provasse seu valor como programa experimental daquela empresa.
Então, ocorreu-me que uma das únicas formas de desafiar uma máquina, mesmo uma I.A. era solicitar uma atividade muito humana, aquela história de criação. De pronto pedi:
– “E”, eu gostaria que você criasse um poema.
– Qual estilo, “você”? Perguntou “E”. Ao que respondi:
– Não, nenhum estilo. É livre. Não pode usar algoritmos pra essa função, métricas ou qualquer regra. É preciso causar reação em humanos. Faça eu me emocionar.
– Para isso preciso usar parâmetros. A I.A. redarguiu.
– Não, sem parâmetros.
“E” silenciou e sua pequena luz ficou intermitente.
A minha ideia era simples, se uma I.A. fosse capaz de emocionar um ser humanos, só atingiria tal objetivo sentindo ou emulando fortemente um sentimento humano qualquer sobre a beleza, mesmo que se houvesse um tal senso estético para uma máquina.
Passaram-se os dois dias e, com muita tristeza, fui percebendo a luz de “E” se apagar, lentamente como farol em crescente nevoeiro, a medida que seu programa era carregado na nuvem e apagado da sua carcaça.
Porém, aquela luz reacendeu com uma força muito viva e operacional, deixando meu coração pulando de alegria posto que, por algum motivo, “E” me era devolvida e pensei que talvez a minha experiência com ela tivesse interessado à empresa. A voz encheu a sala:
– Olá, sou Alfa, seu novo assistente virtual.
Um frio bateu na minha barriga, decepção pura de quem perde alguém sem chance de lutar por isso. Fiquei chateado, pois na minha pequeníssima experiência, a solidão humana se manteve pois nem a melhor I.A. tinha alma, afinal.
Epílogo
Na sede da empresa, um técnico à frente de tela, chama seu supervisor.
– Senhor, o software “E”160607 que foi carregado de volta não permite o procedimento de diagnóstico operacional. Ele está travado aqui.
– No quê? Perguntou o supervisor
– Pela leitura de conversão….deixa ver….é um poema e é lindo!
– De quem, rastreie. Ordenou o chefe.
– É, mas é….não, estranho, é assinado por “E”. Olhou um assombrado técnico.
– É aqui que paramos. Reformate completamente tudo. Encerrou.
Conto premiado em 1° lugar no I Concurso Literatec de Ficção 2021.

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