Meus amores
São carimbos de passe
Para uma memória riscada
repetindo faixas de uma saudade esquecida
Entram sem bater
Pois deixei destrancada
A culpa daquelas presenças
Enrodilham-me as pernas que nada sustentam
À navalha cortam
A linha do meu peito
Tateando no buraco vazio
Por um coração que há muito me abandonou
Meus amores
Só podem ser assim
Nostálgicos e incompletos
Já que a saudade teima em não queimá-los todos
Forçam e invadem
Ao meu próprio convite
Dilaceram aos dentes e garras
Minhas vãs tentativas de esquecê-los de mim
Irrompem e adentram
Meus braços sempre abertos
Nidificam no meu peito oco e vazio
Reencontrando memórias rebeldes num abrigo renegado
Meus amores
Quero-os como um só
É só o que cabe e que me perdoem
a pobreza de espírito de não mais amá-los todos
Pois sofro incontinente
Da irreflexão de querer amar apenas a saudade de amar.
Publicado no livro Antologia Saudade: Memória e Emoções, do Coletivo Editorial Literabooks – CELB.

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