A cerejeira e os ipês-amarelos

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback

Há muitos conceitos sobre o que é Educação. A Lei Nº 9.394/94 – nossa Lei de Diretrizes e Bases da Educação dita que a educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais e que tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

A partir daí, poderíamos cinzelar muitos outros conceitos, como o ato de educar ou instruir; transferir valores; humanização; aprendizagem única; criação e transferência de conhecimentos; ação-reflexão do aprendizado, etc. De qualquer forma, todos sabemos, percebemos ou intuímos acerca da importância da educação na formação das gerações, ligadas ou não pelos laços sanguíneos. Não é à toa que “mal educado!” ainda é uma expressão que denota profunda reprovação por algum comportamento e que, certamente, não foi cunhada no presente e nem deve desaparecer tão cedo.

Por essa mesma natureza transgeracional, mas constante da educação, é que conheci ao final da minha infância o melhor professor que tive: Minoru Massu.

Como toda mãe preocupada com o excesso de energia que três filhos precisavam depreender naquele prenúncio da adolescência, a minha procurou um esporte que disciplinasse e gastasse boa parte daquele vigor e encontrou o judô com o Mestre Minoru.

Segundo o que pude apurar na internet, nosso mestre nasceu na Ilha de Kyoshu na década de trinta e emigrou para o Brasil na década de sessenta, estabelecendo-se em Belém e iniciando o ensino do judô e karatê. Trabalhou incansavelmente por trinta e quatro anos, falecendo na capital paraense em junho de 1994.

Para quem foi jovem nas décadas de oitenta e início de noventa, o ocidente ainda vivia e respirava a mística do sensei, do professor asiático, capaz de trazer sabedoria e ensinamentos de forma venerável e infalível ao aluno ocidental, transformando-o numa máquina de luta e de ditos carregados de conhecimentos quase espirituais e insondáveis.

É claro que muito do que escrevi acima é clichê e, hoje, seria até mesmo encarado como preconceito e não sem razão, mas a realidade era aquela mesma: tínhamos um sensei que se preocupava não só com habilidades e maestria no tatame, mas com a pessoa que formava fora dele.

Ao se tornar pupilo, a primeira impressão que se tinha, mesmo entre os menores, era a da autoridade. Nenhum educador deveria abrir mão disso e ele a exercia de forma inteligente. Ele mesmo sabia que era um adulto, japonês, cingido com a faixa preta e que falava com sotaque carregado. Nós podíamos até temê-lo num primeiro momento, mas a sua fala calma, controlada e até mesmo baixa, começava a render respeito e isto era básico da relação que começava: uma autoridade merecida e modulada pelo respeito, que ainda acho um dos principais objetivos para muitos educadores nos dias de hoje.

As aulas ordinárias seguiam sempre a mesma metodologia três vezes por semana: uniformização correta, quimono apropriadamente vestido com a faixa correta. Vestir um outro grau seria incorreto e desonesto; fazer a reta reverência ao entrar e sair do dojo e aguardar o sensei quieto ou treinando de leve.

O treino começava com alongamentos e aquecimento. Nunca se pulava essa parte. Voltas correndo, mergulhos (um tipo de apoio), sapinhos (pequenos saltos agachados), canoa invertida e abdominais eram muito comuns. Depois, o treino propriamente dito, a prática do judô, braços, pernas, imobilizações, técnicas de sacrifício, estrangulamentos se já na idade e lutas, que era o momento predileto da molecada, nos quais os alunos também treinavam arbitragem.

Ele dava um comando com as mãos e ficávamos em meia-lua de frente pra ele na posição seiza, de joelhos, com a costa reta e sentado sobre os calcanhares ou na posição de pernas cruzadas segurando as mãos. Então, vinha a parte principal da aula que, se não era assim pra mim antes, hoje certamente o é.

Nosso sensei discorria sobre vários assuntos, mas tinha um eixo que não se alterava nunca: a moral. Aqui digo a moral porque eram sempre tratados os valores e os comportamentos das pessoas e com a sua apurada técnica didática, o professor se fazia entender tanto pelos menores, de oito e nove anos até os mais velhos, a partir dos dezesseis e os adultos. Nada, porém, era bobo.

Para que o(a) leitor(a) tenha uma ideia, eis algumas expressões dele que nunca foram esquecidas por mim: “Aqui, mureque num entra, qué ser mureque vai pro baixo do manguera jogá pedra!” – esta era uma fala enérgica para informar a não tolerância com indisciplina e vadiagem, por exemplo. Como se nota, mantive a escrita tal qual ouvíamos do mestre, não por jocosidade, mas porque, como aludido anteriormente, seu forte sotaque era parte de sua autoridade como sensei.

“Agradecê papai-do-céu sempre!” era outra fala que talvez hoje fosse entendida como imposição religiosa, sei lá…, mas naquele tempo ele colocava de forma que entendíamos remeter a um poder supremo. Hoje, percebo que o sensei estava implicando aqui um princípio de humildade ao nos fazer entender, da forma que cada um podia, que existe sempre algo superior e a vida simplesmente acontece e nem sempre temos controle das coisas.

“Respeitá e agradecê papai e mamãe!” Este era um verdadeiro “mandamento”, que só ficava atrás do anterior. Ai daquele(a) cujo pai ou mãe levasse uma reclamação ao sensei Minoru. No mínimo, ganhava uma advertência bem séria. E aqui era um dos pontos altos da pedagogia que o professor usava. Era raro, entre os pais, aqueles que não viam uma transformação no(a) filho(a). Era uma didática que recebia os valores que todos temos na formação familiar e buscava adequá-los à uma convivência mais tolerante e responsável. Briga “era debaixo do manguera!” e se usasse o judô, ficava bem pior. Ele jamais esquecia de nos lembrar. Aqui se sobressaia a força da sua educação.

Hoje, ao conversar com alguns professores da minha filha, percebo que a base da dinâmica autoridade e respeito ainda resta, mas é constantemente corroída pela própria mudança de valoração do ensino, muitas vezes tristemente iniciada no próprio seio familiar.

Vejam, em nenhum momento, o sensei Minoru dizia “respeitá professô!”, porque se isto não tivesse implícito na chegada, o aluno lá não se desenvolveria.

Ele também nos formava professores, pois os mais velhos poderiam assumir as aulas se houvesse algum problema, mas a responsabilidade estava dobrada ou triplicada. Então, o educando experimentava educar, o que valorizava em muito o processo.

Claro que eu ainda teria muito mais coisas a escrever, mas digo que o mestre Minoru prezava pelas boas maneiras, caráter, responsabilidade e disciplina muito mais que uma medalha. Ele formava homens e mulheres para além de atletas. “Um sonho se os alunos fossem assim!” disse um dos professores com quem conversei recentemente.

Dentro das limitações daquele tempo, o professor trouxe o que ele tinha de melhor de sua cultura nativa e adaptou com muito esforço e dedicação. Sua ausência não é só sentida pela amizade que nos falta, mas também pelas gerações que não tiveram a honra de serem por ele formadas, cidadãos plenos e qualificados e em praticamente todos os conceitos de educação.

Sensei Minoru planou meio mundo e fincou suas raízes nesta Belém e sempre estava disposto a resistir no pior e florescer sempre que melhores tempos apareciam. Desta forma, ele nos ensinou também a resiliência para igualmente florescermos mesmo sem folhas.

E sim, caro(a) leitor(a), já ficou óbvio que esta é uma pequena homenagem ao nosso sensei Minoru Massu. E, claro, hoje eu o vejo perfeitamente como uma cerejeira formadora de muitos, muitos ipês-amarelos.

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