— Esses malditos! Diz em voz alta Amadou ao se levantar do chão de seu pequeno, mas aconchegante mausoléu do Cemitério da Soledade. Na verdade, ele achava aquele espaço o mais bonito deles, o de um certo General Gurjão.
Em suas mãos, a propaganda de uma reforma em todo o cemitério, transformando-o num parque-cemitério para visitação e aproveitamento do espaço como opção de lazer no centro de Belém.
Ele já havia notado movimentações perturbando seu sono diurno e que alguma coisa ali aconteceria mais cedo ou tarde. Afinal, este cemitério fora criado em 1850 por conta de uma epidemia de febre amarela. Suspirando, ainda lembra daqueles doces tempos em que tirar a vida era abreviar um sofrimento evidente. Coisa que teima em criar para com gente saudável. A vida da presa é sempre miserável para um vampiro.
— Bom, depois de uns 150 anos morando neste lugar altamente viável, terei que me mudar — falou consigo mesmo de forma triste já que adorava dormir no centro da cidade, um buffet sempre muito bem servido para um vampiro, onde as pessoas podiam desaparecer sem vestígios como se entrassem em portais e, o que é melhor, sem buscas ou questionamentos, piscou enquanto fitava o chão sentado aos pés da cruz das almas daquele lugar.
Amadou em tudo era um vampiro completo. Tinha idade e experiência para isso. “Vampiros vivem ou sobrevivem”. Ele era de viver e compreendia a sua natureza predatória, pois veio de outro tempo em termos de ética e moral dos humanos.
Não sabia quando nasceu, mas sabia que veio da África, que fora um guerreiro derrotado e aprisionado no que chamavam Senegâmbia e que, já vampiro, aprendeu a ler e a escrever muito rápido e que o ano de chegada aqui foi em 1753.
Começou a relembrar sua vida de vampiro, como fazem os que não morrem para se sentirem mais como os mortais viventes. Em especial, lembrou-se de um ano, quando preto, escravizado e já vampirizado, sentia o enorme peso da solidão de sua condição de escravo fugido e assassino. Ele pensava em desistir. Não se alimentava mais e o banzo fez morada em seu coração partido até entender que havia outros que também eram objetos daquela sociedade que ele já enxergava apodrecida de valores e que para ser considerado um homem há de se começar pela pele.
Decidiu, então, que precisava de um companheiro. Alguém cuja alma fosse da terra e o ódio pelo invasor uma semente plantada em seu coração. Foi quando conheceu Toriba.
Toriba, Amadou descobriu, era um descendente dos Tupinambás e que pouco falava português, muito menos o dialeto materno do vampiro, o jalofo. Este vampiro começou a perseguir durante as noites o indígena, como um enamorado perscruta o que lhe aponta o coração.
Toriba percebia Amadou, mas havia aprendido a não julgar os outros, inclusive os negros que pudessem estar trabalhando para os brancos, que para ele eram todos a mesma coisa. A cicatriz em seu rosto sempre estava ali para lembrá-lo.
Toriba estava longe de ter uma aparência frágil de alguém marginalizado. Era forte, mas alto para um índio. Sua musculatura vista pela pouquíssima roupa que vestia lembrava relevos masculinos que Amadou só viu em sua África natal. O indígena ainda tinha uma tez limpa, imberbe, os olhos levemente amendoados e uma testa que parecia ter uma fronte maior por causa dos cabelos implantados mais atrás. Amadou pensou nele, mas para deixar que as primeiras impressões não o dominassem, esperou ainda uns três dias. Se continuasse desejando aquela pessoa, certamente ele iria caçá-la.
Caçar que, aliás, era uma de suas habilidades mais marcantes entre a sua gente africana. Valia tanto quanto saber achar ouro ou plantar.
Amadou, então, decidiu que queria Toriba como companheiro. Achava que era uma das coisas que lhe faltava: a mão nada tépida de outro vampiro nas suas e um interesse fugidio por uma lealdade que não sabia sequer se iria existir.
Precisou, contudo, lembrar-se de como foi transformado.
Quando capturado e vendido, ficou à espera de um terror que só conhecia das histórias contadas pelos mais velhos da sua tribo. Viu monstros marinhos gigantes que engoliam centenas de escravizados para serem levados a um lugar distante, solitário e onde a paga pela vida era o trabalho até a morte. Dentro desses monstros, muitos deuses e entidades mágicas matavam vários que eram lançados ao mar em oferenda ao Deus dos brancos para terminar tal travessia.
Chegara o dia em que Amadou foi mandado em fila no libambo para a barriga da fera, mas descobriu que aquilo era um tipo de barco, onde foi colocado imprensado com muitos pretos diferentes e que não falavam a sua língua. Ele lembra que passados alguns dias, os homens e crianças começaram a morrer, que se sentia fraco, tudo doía e que achava que teria o mesmo fim, mas ainda guardava dentro de si uma vontade de viver e começou a perceber olhos que lhe miravam do fundo da embarcação. Dois pontos pretos em um fundo branco olhavam pra ele dia e noite.
Durante uma das noites em que chorava quieto, com seus soluços bem guardados pelas lágrimas que corriam raras por seu rosto, sentiu que alguém encostou nele, por suas costas e, falando em sua língua pediu silêncio, colocando um dedo em seus lábios, dizendo: — Eu sei que a sede e a fome são insuportáveis e que começou a pedir para morrer, Amadou.
A reação de Amadou foi se virar imediatamente para aquele que, além de falar sua língua, também conhecia seu nome, mas o outro recostou seu corpo inteiro nele e, sendo muito mais forte, impediu-o de se virar.
O estranho, então, começou a contar histórias da própria vida de Amadou, como se o conhecesse há muito tempo. Terminou dando dois finais possíveis para ele: tornar-se alguém diferente, mas livre; ou ser um escravizado e viver apenas para conhecer o inferno dos brancos.
Amadou aceitou aquela proposta sem pensar e o estranho permitiu que ele se virasse, vendo, então, um homem muito bonito a sua frente, musculoso, nu e com olhos penetrantes que devassavam o seu íntimo. Alguém cuja figura tirava a informação que quisesse de você; enfim, que projetava uma beleza que parecia viva e emanando ondas de sedução em todas as direções.
A transformação vampiresca não é um ato de ferocidade, de curral, de gado submetido ao tocador, mas um ato de amor. Amor físico e carnal, que quando experimentado e extático naquele que se tornará vampiro, torna o beijo, quente e sulcado daquele que o transforma, servido de vida eterna.
Logo naquele ano em que foi trazido, tornado um vampiro ainda embarcado, ele conseguiu fugir sem conhecer seu destino de escravo na nova terra, o Brasil. Passou a ter maior sensibilidade ao sol e à própria fome. Aquele amor que desapareceu misteriosamente no tumbeiro lhe explicou que havia um tempo para se adaptar a sua nova condição de vida, mas que uma vez completada a transformação, não conseguiria ver ou sentir o sol e apenas conseguiria se alimentar de sangue humano. E assim o fez, sobrevivendo apenas e só.
Toriba, então, tinha aparecido em sua vida e uma sensação de fome distinta lhe fora despertada. Seguiu o indígena por mais de três noites e a cada dia que nascia ficava mais clara a sua atração por uma companhia que provasse e gostasse do seu gosto, assim como ele sabia experimentaria aquele êxtase novamente.
Pelas ruas de paralelepípedos, sujas de excrementos de cavalos e das vacarias que existiam, Amadou terminava sua perseguição próximo à área de captação de água da cidade, perto de um grande lago. Apenas se retirando quando ouvia o rangido das rodas dos aguadeiros pois iria amanhecer, mas ia sabendo que o seu indígena estava em um pequeno assentamento próximo, em sua rede e, em sua fantasia, pensando nele.
Finalmente, o vampiro achou que tinha chegado a hora de se conhecerem. Quando viu Toriba se dirigindo àquela área um pouco afastada que era o caminho do seu assentamento, Amadou caminhou na direção contrária tomando o cuidado de não ser visto dentro da escuridão que ali fazia, mas o indígena estacou e perguntou sem voltar a cabeça para nenhum lado o que queria aquilo que o seguia.
Amadou disse que queria conhecê-lo melhor, que queria ser amigo e que tinha muitas coisas para mostrar.
O indígena respondeu que quem precisa de amizade não faz caça do outro e nem se esconde no escuro.
Ao ouvir isso, Amadou saiu da escuridão para uma área de maior claridade possível em que Toriba pôde vê-lo pela primeira vez.
O indígena conhece bem as sensações da caça, sabe como é a ansiedade do predador e o instinto de medo da presa o que lhe foi arrebatador. Era como se estivesse na frente de uma onça-pintada ou de uma surucucu. Ficou com muito, mas muito medo. A morte estava ali e falava com ele.
Porém, ele também sentiu algo diferente que o fez não se afastar daquela sensação de morte. Algo em Amadou que não o ameaçava, mas na confusão de sentimentos que lhe invadiu, era algo que o atraía, como insetos que voam perto do fogo sem se queimar, mas com uma possibilidade nervosa de morrerem.
Naquela amizade que começava, ao longo daquela semana Amadou explicou muitas coisas para o indígena, como o fato de só poderem se encontrar a noite e que não se alimentava como as pessoas, mas sugava-lhes o sangue até a morte.
O preto era exímio na arte da sedução física e mental, pois Toriba o acompanhou em uma caçada e pôde apreciar o que um vampiro há não muito transformado já podia fazer.
Uma crioula vinha de um regato ao anoitecer. Havia se banhado e com a roupa de chita enrolada como uma única peça e os cabelos livres de qualquer adorno, ela entrou numa área mais aberta quando ouviu duas palmas: clap, clap. Ela parou com o susto e olhando com os olhos bem arregalados para tentar ver melhor na escuridão, ouviu novamente aquele clap, clap. E depois do mesmo intervalo, novamente o clap, clap.
Amadou surgiu então com os braços para cima, batendo aquelas palmas ritmicamente e quando o pé direito dava um passo e o esquerdo vinha como que lambendo o chão, o quadril do vampiro começou lentamente um ritmo de vai-e-vem para frente e para trás até se aproximar o suficiente para que a moça enxergasse o rosto daquele dançarino. Então, ele começou a girar ainda com os braços para cima sem, contudo, tirar o rosto da direção da moça. Ele dançava sem música, mas Toriba percebia uma música assim mesmo no vento e nas árvores e na vida noturna, como se o giro do vampiro controlasse os sons do mato.
Enquanto Amadou girava no próprio eixo e em torno da crioula, ela soltou os panos e, nua, começou a remexer as cadeiras de forma compassada e seguindo o ritmo que se lhe apresentava e dançou de forma muito sensual com os seios despidos e balançando com os bicos entumecidos. Era uma espécie de lundu.
Ela tentou pegar em Amadou por duas vezes, mas ele se desvencilhou graciosamente, até que se encostaram costa com costa e colaram seus rostos, mas com um giro rápido, o vampiro passou para as suas costas pegando-a por trás e cravando-lhe as presas no pescoço que sugou com tal força que a pobre mulher deu apenas um suspiro e caiu-lhe aos pés.
Toriba ficou perplexo e maravilhado, pois uma coisa é ouvir e a outra é ver. O indígena chegou à conclusão que Amadou era na verdade uma entidade dotada de grande poder e que decidia quem vive ou quem morre ao cruzar o seu caminho.
Ao terminar sua refeição de forma rápida, o vampiro perguntou ao indígena se aquela vida era pra ele uma possibilidade ou não. Se fosse, teriam muito o que aprender um com outro em uma vida sem a limitação do tempo, mas se não concordasse, ele estaria livre para seguir a vida. Ninguém acreditaria mesmo em sua história.
Toriba pensou um pouco e então disse que não queria viver dessa forma: como um bicho do mato, caçando e sugando sangue dos outros, privando famílias e tribos de seus entes, mas que poderia continuar sendo amigo de Amadou.
Com uma visível tristeza e ar de contrariedade, o vampiro concordou e deu um abraço naquele que já considerava como um irmão. O único que conhecia seus segredos, talvez fosse a sua segurança diurna. Quem iria saber?!
Toriba seguiu então pela noite para o acampamento dos seus. Em sua barraca, armou a rede e deixou o fogo aceso, olhando para os insetos que eram atraídos pela luz e enxotados pela fumaça. Adormeceu nu na sua quessaba.
Sonhou que algo silencioso e furtivo como uma cobra deslisava para baixo da sua rede e gentilmente apanhava o paneiro e afastava a fumaça e os insetos que o incomodavam antes de dormir.
Relaxando então mais profundamente, Toriba percebeu que algo morno segurava seu tronco, enquanto uma outra coisa lhe acariciava gentilmente o peito esquerdo, de uma forma tão suave como se passasse naquele lugar uma pena de arara. Era delicioso sentir aquilo no bico do peito e depois descendo por sua barriga até chegar a altura de sua virilha.
Toriba imaginou as mulheres de sua tribo que ficam nas redes de baixo alimentando o fogo e espanando a fumaça ao mesmo tempo que, em sua imaginação, provocavam os companheiros com jogos de sedução. E isto o excitou bastante.
De repente, defronte da sua rede, como que magicamente irrompendo por entre as tranças, surgia Amadou, alto, preto e forte, que se reclinou por cima de Toriba que, assustado, percebeu que não era um sonho, mas a visita real e inesperada do vampiro.
O indígena tentou se mover, mas Amadou lhe segurava pelos ombros e com tal força que ele não conseguia sentir os braços, muito menos movê-los. Toriba gritou qualquer coisa em sua língua, mas o vampiro o ergueu e atirou ao chão como se ele não pesasse nada.
Ao se levantar com o intuito de fugir, Toriba se viu novamente frente a frente com Amadou que, numa velocidade surpreendente, atirou-o mais uma vez ao chão. E mais uma vez. E mais uma vez.
Ambos estavam agora no chão, com Amadou por cima de Toriba e dando um beijo naquele, o que lhe perturbou os sentidos e causou um torpor que fez seu corpo estremecer e ficar flácido, mole e entregue aos muitos beijos e carícias que recebia. Enquanto o vampiro abastava-se em seu sangue, suor e saliva, Toriba se entregava e amores foram feitos, com cada qual empunhando o próprio sangue no próprio cálice e em muitas vezes bebendo um do outro.
Amanheceu e Toriba estava deitado em sua rede, perturbado com as visões daquele “sonho”.
O dia passou com ele taciturno em sua experiência de sonho, perturbado com o gostar da visão e da intimidade de Amadou. À tarde, foi tomar banho num dos inúmeros igarapés que passavam nas proximidades do lago da cidade e se sentou numa pequena canoa que ali estava, deixando a escuridão tomar conta do que é seu quando o sol se vai.
Sentiu um vento forte por volta de si, como se um redemoinho descesse das árvores naquele pedaço de água. Arrepiou-se todo e soube por algum sentido que desenvolveu mas que não conhecia ainda quem ou o quê estava ao seu lado.
Amadou sentou na canoa como se peso algum tivesse, sequer balançando a embarcação. Toriba não virou nem mesmo o rosto, mas estranhamente a presença do vampiro lhe causava certa paz. Sentia também que algo lhe faltava, como se alguma coisa lhe fora tirada e nada colocado no lugar, mas o outro o completava de alguma forma e, percebendo isso, ele se acalmava.
Ambos se encontravam todas as noites e a transformação de Toriba foi sendo acompanhada de perto por Amadou. Suas crises de ansiedade, de fome e de sede. Sua vida cada vez mais noturna e afastada dos seus foi muito mais interessante que o vampiro Amadou esperava.
Ele passou a mostrar cada vez mais suas habilidades de caça para o indígena: da dança sensual até a estratégia simples de esperar no escuro e atacar, gastando um mínimo de energia, passando ainda pela perseguição que lhe era mais prazerosa quanto mais longa e difícil fosse. Isto talvez fosse um traço do antigo caçador tribal que tinha sido.
Quando passaram a caçar juntos, as noites pareciam intermináveis: botes em cantos escuros, jovens seduzidos ou terror nas estradas, tudo era um aprendizado para ambos. Toriba, no entanto, quis aprender aquilo que não havia entendido. Como poderia transformar outros em seres como eles?
Para isso, Amadou não tinha uma resposta. Apenas o que aquele ser no barco negreiro havia ensinado: toda a transformação é feita por desejo, fome e sexo não importando o gênero.
Apesar da nova felicidade experimentada pelo vampiro africano, o indígena começou a sentir a solidão pelo sexo oposto e sua alimentação passou a só envolver mulheres as quais ele tentava transformar, mas sempre sem sucesso.
Não importava o que sentia pelo outro, Toriba se submetia aos prazeres do parceiro e até mesmo gostava do afeto que nasceu entre eles, mas não se sentia completo, como disse para Amadou. Um sentimento que o próprio já tinha experimentado e que foi o que justamente levou à cobiça, caça e transformação do parceiro. E isso tudo pesava em seu coração. Ele sabia que o seu silencioso amado queria ir. Há corpo e mente, mas não coração que um vampiro possa prender.
Amadou ficou furioso e queria matá-lo. Sua frustração era tamanha que passou a não mais olhar diretamente o outro nos olhos. Criou verdadeira repulsa quanto às necessidades do amigo. Estava, enfim, sendo dispensado do primeiro e único amor daquela terra que conhecera só pela dor.
Toriba tentou falar com ele várias vezes, mas não foi ouvido mais. Tinha dificuldade para entender que alguém possa possuir outro, como se dono fosse dele. Em seu universo, ele sabia que tinha que retornar para a floresta e que agora entendia o papel que o mundo tinha para si.
Uma noite ele simplesmente não apareceu mais.
Amadou sentiu o desespero subir-lhe a garganta quando começou a procurar pelo outro. Quase nem se alimentou, fazendo isso de forma desleixada com dois escravizados amarrados num tronco que se fazia de pelourinho depois de espantar os vigias colocados ali. Praticamente na frente de todos.
Como vampiro, ele cobria longas distâncias de forma muito rápida, mesclando-se ao vento, uma sombra preta pouco distinta aos olhos mais atentos, e não encontrava Toriba. Parando, finalmente, nas tendas onde o outro vivia antes de ser transformado.
Nada.
Amadou, triste e novamente solitário, continuou a levar a vida que já tinha antes de Toriba, mas o amor e a saudade pelo indígena lhe ardiam o peito e roubavam-lhe o sono diurno. A fome só era abatida quando já quase morto por ela. Ficou magro e de um preto elegante restou algo esquálido, depauperado, mais morto do que vivo.
Uma noite, porém, enquanto ouvia todos os barulhos que a vida faz em torno de si, seu olfato percebeu uma presença que fez disparar seu coração, mas fraco como estava, não teve tempo nem de se virar para aquele que estava a sua frente.
Toriba, resplandecente num cocar de penas amarelas e vermelhas, quase nu, mas com alguns objetos presos ao peito por cordas, estava parado e o observando. Lindo em sua mais perfeita forma: jovial, potente, quase mágico.
Amadou sentiu tremer o corpo diante daquela aparição e, jogando-se aos pés de Toriba, começou a soluçar querendo apenas saber a razão do seu abandono. O indígena explicou que, entre os seus e até mesmo entre os pretos nascidos aqui ou não, existe um acontecimento que transcende o entendimento e dá origem à algo que não é natural, mas uma força da natureza que são os encantamentos. E que ele se apercebeu naquela noite quando foi embora que tinha se tornado um encantado e seu lugar era a floresta, as matas, seu povo.
Ele veio convidar Amadou a se juntar a ele, pois o afeto que lhe sentia ainda inflamava em seu peito. Viver como um encantado que sequer ainda tinha nome dentre as histórias que os povos contavam era uma grande honra para Toriba.
Amadou precisou recusar, pois seu mundo e o do homem branco haviam se misturado de tal forma que ele nunca conseguiria sair desse mundo. Em sua terra, talvez fizesse sentido ser parte do ambiente da tribo que um dia pertencera, mas aqui ele era algo difícil de se aceitar, mas que precisava existir no mundo do branco: aqui ele era preto, mas um que caçava e matava brancos também.
Um dia talvez, disse, eles poderiam viver juntos nos encantamentos que a tudo cerca esta região do mundo.
Terminando pela milionésima vez de rever a história de Toriba, Amadou tem que procurar um novo lar: — Acho que vou morar no alto desses prédios novos em Belém. São bem altos e ninguém vai acreditar num vampiro fazendo seu ninho lá. Basta encontrar um buraco, fechar pelo dia e descer durante a noite. Os cemitérios tem desenhos novos, mas todos sem mausoléus. A morte tem ficado cara e feia, pelo visto.
Amadou ainda espera, noite após noite, por Toriba, mas já entendeu, no entanto, que é necessário que o tal encantamento se encerre, ou seja, que a lenda de um vampiro indígena se acabe com o futuro que chega. Conhecendo os brancos, certamente um dia os indígenas acabarão e ele, sendo dos últimos, se não morrer com os seus, voltará pra mim. E sorrindo tristemente fechou os olhos e farejou o ar.

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