Ai, tá quente! Suado. Meu olho direito coça com algo que passeia por cima dele: uma mosca! Passo a mão antes de abrir os olhos. Nojo só de pensar nela no meu olho. Parece que a primeira ação do dia é respirar o ar quente dessa cidade abafada. A sucursal do inferno. O segundo ato é repescar da memória o que tinha antes de respirar e da mosca. Ah, festa! E nela tinha: Helena! Daí vem bebida, comida, bebida, mais bebida… isso explica a mosca e a sensação de calor. Vomitei. Odeio isso. Tem um bilhete na minha testa. Peraí… “favor entregar no 904.” Provavelmente pro porteiro. Eu devia estar um saco de lixo, não que esteja melhor agora. Acho que foi ela quem me trouxe e escreveu. Percebo que vivo passando isso com ela. O seu apelido deveria ser “lixeira”. Bom, vida segue: Banho, barba, antiácido, digestivo e analgésico, mas no trabalho lembro: ela morreu, Helena se foi. Então, saio de novo.

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