um prédio mortal
Edifício Menezes
Era noite de sexta na casa do Raul e toda sexta é festiva lá. Cervejas, churrasco e contação de histórias. Cada qual tem sua especialidade para contar: o Bruno conta piadas e fatos engraçados, principalmente do seu sisudo escritório de geologia; o André é movido a aventuras amorosas e diálogos picantes, mas que ninguém acredita; o próprio Raul fica atado às estórias caseiras, uma vez que a dona esposa está sempre por ali ajudando; e o Makoto é o carinha do fantástico: ETs, assombrações e congêneres é com ele mesmo. Eu sou o que menos falo mas sou aquele que escreve e aqui vai a única experiência que tive com o paranormal. Porém, nem eu mesmo sei o que vi, ouvi e senti e que só foi possível graças à insistência do japa em me levar numa experiência de caça-fantasmas.
Naquela sexta específica, a gente já estava rindo à beça com a improvável estória do André de ter namorado uma mulher que o convenceu que o pomo-de-adão dela era uma genética de família. E a questão do riso nem foi o beijo em si, mas o fato da mão dela ser maior que a dele, assim como os pés e a barba. Podia até ser questão hormonal e de genética mesmo, mas a piada estava posta na mesa e não tinha mais como tirar.
O Makoto chegou muito calado e assim que pegou uma cerveja e se sentou no parapeito da área da churrasqueira, eu perguntei:
— Fala, japa, e aí, meu? Tudo certo?
Makoto tem um jeito de fitar a gente quando tá com algum problema. É uma maneira que, meio que incomoda, como se olhasse o infinito através da gente. Sim, é isso, um olhar sem ver.
— Beto, eu tô com um problema e preciso resolver até amanhã.
— Qual problema? E existe algum que a gente não resolva juntos?! – ri e tomei mais um gole de cerveja, que não podia esquentar naquela cidade já quente que é Belém.
Antes de responder, o Makoto arrumou a cara e cumprimentou o povo com quem ele ainda não havia falado ou sequer visto, ou seja, praticamente todo mundo.
O Raul foi logo dando o papo.
— Ô, japa, uma linguiça e farofa por um “causo” teu. Pode ser? A cerveja é por conta – e desatou a gargalhar.
— Amigos, hoje infelizmente não tenho nenhuma história real, ou inventada, o que nunca faço – falou baixinho pra agitação geral.
— Como assim??? – disparou o Bruno, — A gente cata as estórias feito latinha de alumínio e vens sem nenhuma. Ah, devolve a linguiça! – arrematou jogando uma lata vazia no japonês, que ficou rindo meio sem graça no meio da algazarra.
O encontro transcorreu sem nenhum outro incidente, porém Makoto parecia querer falar alguma coisa. Assim que pegamos o beco, ele passou a me contar a causa daquele mutismo e estranheza toda.
— Beto, sabes o edifício Menezes?
— O cai-cai?
— É. Bom, eu não gosto muito desse apelido.
— Não sabia. Desculpe, mas é porque as pessoas pulam dele o tempo inteiro.
— Na verdade, caem. As pessoas CAEM dele o tempo inteiro.
— E como cê sabe disso?
— O primo Jordan, da polícia civil, diz que os peritos não conseguem chegar a conclusões e colocam suicídio na papelada porque não tem outro jeito. De acordo com ele, todos lá dizem que os cálculos das quedas não fazem sentido. As pessoas caem numa distância e de uma forma que só poderiam ter sido empurradas.
— Caraca! E é por isso que cê tá assim?
— Sim, porque como eles sabem que lido com questões de paranormalidade, querem que eu vá lá e até já me deram uma autorização. Eu só caço fantasmas, só isso.
— É, isso é assustador pacas!
— E o pessoal que me segue nas redes também quer que eu vá. O primo Jordan fez o favor de deixar uma mensagem aberta no chat me desejando boa sorte. Algo do tipo… meio que não dá pra escapar, não é?!
— Você vai só? – perguntei sabendo que ele trabalhava só nas lives de investigação paranormal.
— Dessa vez, não. Vai um perito da polícia, acho que o Denner, e queria saber se você, amigo, não quer vir também? Não quero ser eu e um policial num prédio cujo apelido é cai-cai…
— E quando será essa aventura maluca?
— Amanhã. Não me deram muito tempo. Aliás, a polícia sempre tem um tempo muito corrido mesmo. Tiro isso pelo primo Jordan, sempre muito ferrado de tempo.
— Cacete, japa, deixa eu pensar um pouco.
Minhas mãos foram diretamente para o bolso da calça atrás de um cigarro e por um minuto eu esqueci que parara de fumar há dois anos. Um vento mais frio de uma noite clara em Belém trouxe o que parecia uma resposta para minha dúvida. Tal brisa se traduzia num sentimento de segurança. De alguma forma.
— Que horas? – perguntei.
— Cinco da tarde, eu te apanho em casa – foi a resposta que ouvi quando Makoto virou as costas e foi caminhando de cabeça baixa até o seu carro.
Paramos o carro numa esquina de duas ruas movimentadas em Belém. Estávamos perto de uma grande praça, quando me peguei fitando um prédio não muito pequeno, abandonado e de contornos suavemente ondulados. Quando novo, devia emprestar um ar majestoso àquele lugar. Agora, um local de tristes recordações das pessoas que lá perderam a vida e pelas quais tentaríamos, como uma ferramenta de desespero policial, obter mais informações sobre que diachos acontece ali.
Na parte da frente, a gente viu um sujeito atarracado, branco, de cabelos raspados, jeans, uma camisa, colete e um sinistro óculos escuros. Era o Denner. Mais policial, impossível!
Fui logo perguntando:
— Esse prédio deve ter uns vinte andares, pelo menos. Qual a ideia pra começar?
— Bom, eu trouxe só um gravador digital, um medidor de campo magnético e você ficará gravando. Não vou fazer live disso, pois envolve a polícia e não vão querer que um deles apareça ao vivo caçando fantasmas, não é mesmo?!
— Tá. Entendi.
Fomos ao encontro do Denner, que sorriu ao nos ver e, estranhamente, parecia encantado com o trabalho daquele dia.
— Ei, gente. Tudo bem? Prontos para uma aventura macabra?
— Não tem graça – respondeu Makoto, com aquela cara indiferente que sempre me incomodou.
— Olha, Makoto, eu vim ajudar e isto porque eu perdi no palitinho. Então, releve meu bom humor trabalhando em meu dia de folga, please.
— Sim, vocês dois, a gente sobe até o vigésimo, vai parando, faz andar por andar… como é? – perguntei pra saber o esforço que faria.
— É no décimo-terceiro – respondeu Makoto.
— É… sempre o décimo-terceiro – arremedou o Denner e complementou com uma pergunta: — Cês não saberiam por que é sempre no maldito décimo-terceiro, não, né?!
— Acontece que a polícia só tem ideia de que se trata de uma altura entre o décimo e o décimo-quinto. Foram testemunhas que sempre disseram que era aquele andar.
— Bom, pelo menos ninguém precisa subir os vinte e cinco andares – disse o Makoto, com um meio sorriso cínico.
Então, subimos.
O prédio é muito mais elegante do que eu supunha. Suas quinas são sinuosas, as portas dos apartamentos não são grandes e os próprios são de tamanho modesto para um edifício que já foi o maior da capital.
Abandonado, hoje seu laranja tijolo é sua pele desnuda da pintura branca original. Muitas plantas crescendo em seu interior. Milhões de samambaias e plantas que pegam no chão, como se diz.
Um elevador muito bonito e clássico se descascava como uma barata se amparando debilmente na parede entre o térreo e o fosso. O outro já não existia mais. Foi levado ou desmontado.
O pé direito do térreo impressionava e só por isso permitia o crescimento de mamoeiros e uma embaúba na área por onde uma debilidade de sol podia entrar.
Estava dando seis da tarde e é quando, em Belém, há uma verdadeira virada de claro para escuro. Sendo que às sete horas fica bem escuro mesmo.
Olhando o relógio, o japa apertou o passo em direção às escadas, nada convidativas por sinal. E começamos a subir com as seguintes orientações:
— Gente, por favor, não importa qual momento ou qual andar a gente se encontre, se vocês sentirem qualquer coisa, avisem imediatamente. Pode ser importante, ok?!
— Tá certo – respondemos.
Para nossa surpresa e desânimo, tudo o que sentimos, até mesmo ao chegar no décimo terceiro, foram cansaço e câimbras. Denner ainda sentiu falta de ar, graças ao vape que teima em usar.
Makoto pediu então para ficarmos naquele andar, no que foi um apartamento maior que possuía janelas, ou melhor, vãos que eram voltados para oeste e norte, pelo único motivo de ser aquele imóvel o de maior possibilidade de origem das quedas, pois estas sempre foram próximas ao canto do prédio.
Ele foi conduzindo uma série de experimentações, tanto com o seu medidor de campo magnético, quanto com o gravador digital, com resultados negativos para o primeiro e, aparentemente, o mesmo para o segundo, pois sabia que ele teria que usar um programa para procurar ruídos inaudíveis. Eu fui filmando tudo, tendo prendido o celular num bolso da camisa na qual ele ficava só com a câmera para fora, parecendo uma bodycam.
E assim foi até às vinte e duas horas.
A coisa começou a mudar com a alteração repentina do vento que entrava pelas janelas ao norte, mas que num primeiro momento parou e, de repente, passou a entrar com muita força pelas outras janelas, com um zumbido assustador que fazia ao passar pelas diversas trincas e fissuras da parede, correndo em direção à porta do apartamento e daí para o vão interno do prédio.
Um clarão repentino de um raio iluminou aquele lugar e prenunciou uma tempestade noturna, rápida e feroz, como são as chuvas no Norte. Como estávamos todos com a visão se acostumando à escuridão, com o susto e a luz, vimos coisas naquele ambiente. Não sei se foi a soma de tudo, mas eu tive certeza de que vi uma sala cheia de gente que não estava ali antes.
O estrondo era ensurdecedor. Tentávamos nos falar, mas não nos ouvíamos, tanto o vento que agora soava assustadoramente fantasmagórico quanto o ribombar dos sucessivos trovões que seguiam os raios tornavam impossível qualquer comunicação que não a gestual.
Makoto, que estava no centro da sala, levantou o que parecia uma tocha com a mão. Ao limpar meus olhos da chuva que varria a sala, pude perceber que era o medidor de campo eletromagnético que estava vermelho, parecendo que ia explodir e, para todos os lados que ele apontava, a coisa ficava da mesma cor, sequer descia para o laranja. Isto indicava, se a teoria de caça-fantasmas estivesse certa, que o local estava tomado de espíritos ou fantasmas. Mesmo sendo desconfiado, naquele momento eu lembrei o que aquele primeiro clarão me mostrou e senti um calafrio.
A chuva e o frio nos abraçavam ali.
Como passei a começar a acreditar naquelas histórias de fantasmas, aí mesmo é que os clarões começaram a me mostrar sempre pessoas com a gente lá. Elas eram todas de cores que mudavam. Sempre pálidos, mas ora vermelhos, ora brancos e ora amarelos. Crianças, adultos e idosos. Homens e mulheres. Era como se uma população inteira morta do prédio se enfiasse numa simples sala dele.
Makoto se esforçava para me perguntar algo e eu, vencendo o vento, consegui me aproximar e o ouvi me questionar sobre se o gravador estava ligado e se o Denner saiu do apartamento.
Eu respondi que eu deixei o gravador no REC num canto da sala e devia estar funcionando, mas não sabia com certeza. Quanto ao Denner, eu saí para procurá-lo pelo apartamento, mesmo naquela loucura. Não o encontrei nem na unidade, nem no andar.
Quando voltei, ainda naquela tormenta, encontrei Makoto rente a uma parede e fazendo um sinal desesperado para que eu fizesse o mesmo. Não entendi, mas obedeci e, com um outro sinal, ele me disse para “escorregar” pela parede até ele.
Gritei o mais alto que pude: — Por que isso? O que está acontecendo?
— Não podemos ficar no centro da sala. Olha o piso!!!
Ao olhar, vi que partes das tábuas corridas eram levantadas e arremessadas para fora com uma violência apavorante. “Que forças havia ali capazes disso?”, pensei.
Fui tomado por um sobressalto e meu estômago deu um nó, subindo uma espécie de bílis até a garganta, junto a um frio que avançou como um trem pela minha espinha.
Passando pelo amigo, quase me desprendendo da parede, alcancei a janela mais próxima e, com muito medo, arremessei-me por sobre o parapeito para olhar para baixo.
Ai, meu Deus! Era o Denner.
Estatelado como uma mancha mal pixelada e delineada estava nosso companheiro. Fiz imediatamente um sinal de passar a mão pelo pescoço e gritei o nome do Denner. Makoto prontamente entendeu o significado e ficou estático e pálido como um boneco de cera parecendo digerir algo muito, mas muito indigesto.
Voltei para a parede em segurança naquele pandemônio em nossa frente. De repente tudo acalmou. A chuva tornou-se quase um chuvisco. Os trovões e relâmpagos cessaram e voltamos a nos ouvir.
— Que diabos foi isso, japa? – perguntei, assim que recuperei o fôlego.
— Não sei, mas parece ter se acomodado depois do Denner ter caído.
— Jogado! Ele foi jogado, Makoto.
— Sim, mas por quem? Pelo quê?
— Ai, Deus, temos um policial morto e não sabemos nem por onde começar. Precisamos descer.
— O pior é que nem testemunhamos o que aconteceu com ele — disse Makoto com aquela cara consternada que conheço bem.
Então, eis que de repente, tudo recomeça: a chuva torna-se ainda mais violenta, os raios e trovões caem sobre nós com força e o vento nos atira de volta à parede.
Olhamo-nos com surpresa e susto. Novamente, parados rentes à parede, procurávamos ver mais alguma coisa além daquele festival pavoroso de figuras feito estátuas em poses terríveis demais para se descrever, como se o horror de suas mortes lhes tivesse tomado de pavor e este ficou impresso em seus horrendos “corpos”.
Subitamente, senti algo me puxando da parede, como se muitas mãos invisíveis tentassem me arrancar do nicho que achei que fosse a minha proteção. Olhei para o Makoto e ele também parecia sofrer a mesma coisa.
Gritávamos um para o outro: — Aguenta!!! Não desgruda!!! Não deixa!!!
O amigo, porém, por ser mais leve talvez, foi arrancado com muita força da parede e foi girado no ar, parecendo bater em superfícies que eu não via. O medidor eletromagnético foi esmagado em suas mãos e caiu inútil no chão. Comecei a ver ossos e tendões estalarem. O rosto dele foi ficando de uma coloração azul-rosáceo que eu nunca tinha visto e o corpo foi ficando achatado, como se uma prensa o estivesse pressionando até esmagá-lo por completo e, numa velocidade, saiu pela janela.
Bom, agora eu entendia como as pessoas eram vistas caindo.
Quando comecei a sentir novamente as tais mãos e o destino que me aguardava, tive uma ideia desesperada: atirei-me ao chão e senti que fiquei um pouco mais livre, começando então a me arrastar em volta pela parede do quarto o mais rápido que pude. No entanto, logo comecei a sentir as mãos ao longo do meu corpo começarem a tentar me erguer, mas cada vez que me debatia na parede, a tensão para me levantar diminuía, quando correndo passei a mão no gravador, pois vi a luz vermelha do rec acesa.
Saí pelo corredor e tudo me foi um borrão. Acredito que desci as escadas em extremo desespero, com meus ouvidos apenas escutando teimosamente os trovões e todos os barulhos grotescos daquela sala.
Ao passar pela entrada, fui ofuscado por um clarão intenso e luzes coloridas. Era a polícia. Havia alguém me dizendo para ficar de joelhos e não me mexer.
Olhei em volta e fiquei estupefato. Era uma noite muito clara, de luar, inclusive. Não havia chuva e tudo estava muito seco, inclusive o ar. Não entendi, olhei para mim mesmo e eu estava seco, somente suado. Eu tentei falar, mas uma ordem de detenção foi lida enquanto eu via carros de bombeiros e do Instituto Médico Legal num agrupamento em torno de dois cadáveres. Gritei pelo Makoto e pelo Denner e ouvi do policial que me conduzia que era realmente bom eles acordarem, pois caso contrário, eu estaria bem enrascado.
Na delegacia, contei todo o ocorrido e me olhavam como se eu fosse doido, um assassino perigosamente doido e comecei a perceber que todas as mortes que ocorreram naquele prédio durante a minha vida adulta seriam debitadas às minhas custas. Começaram a falar em assassino em série e, enfim, ouvi falar da prisão do “Empurrador do Menezes”.
Entreguei a câmera e o gravador para servirem de provas. O laudo da câmera dizia que havia um registro em preto de seis horas de duração, sem volume. Eu disse que era impossível, mas eles me deram a explicação mais lógica possível: que, se na falta de um problema de mal funcionamento, muito provavelmente eu a teria colocado ao contrário, de modo que a lente ficou voltada para a minha camisa. Uma tamanha estupidez até que ganhou sentido quando, editando a imagem, eu mesmo reconheci o padrão da minha camisa.
Já com relação ao gravador, eles apenas ouviram alguns sons, como gritos e baques, no que parecia ser uma luta coletiva entre os três. Esses barulhos diminuíram até ficar uma respiração que se manteve alta com o som crescente de pessoas e carros e uma ordem, aquela pra eu me ajoelhar.
Pedi para meu advogado que eu pudesse ouvir uma cópia da gravação, já que era a única coisa que eu tinha daquela desventura.
Prepare-se, pois o que eu ouvi é o que mantém minha alma neste lugar miserável: ouvi muitas e muitas vezes a minha própria voz falando sobre fantasmas, gritando com os outros, mandando ficar contra a parede. Da minha parte, a única coisa mais clara mesmo foi quando falei de testemunhas. Neste momento ouvi, e ainda ouço, a voz do próprio demônio dizendo que, sim, quem mata e vive dá testemunho como seu filho.
E neste manicômio, ainda me deixam falar à vontade.
Inté.
Publicado originalmente na Antologia Fantasmas: Horror CELB vol. III, Coletivo Editorial Literabooks, 2024.
Ouça a trilha sonora baseada neste conto: Menezes Building por Rafael Melo Project, 2025.

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