Acordei com olhos que me davam bom dia.
Eram olhos sorridentes que me perscrutavam se havia dormido bem e se havia sonhado.
— Sim, sonhei. — respondi.
E os outros olhos me perguntaram então como foi o tal sonho.
— Irresponsável e amoral como todos os sonhos.
Aquele olhar, acomodado num travesseiro e piscando, perguntou ainda se poderia ter sido um pesadelo afinal.
Com uma revirada de olhos respondi: — Não tive medo quando deveria ter e tive pavor quando não deveria. Não posso dizer se foi sonho ou pesadelo.
Os olhos, então, estreitaram-se nas fendas de suas pálpebras como num sorriso me perguntando de quê eu tinha ou não medo nos sonhos.
— Dos homens, como sempre. Não consigo confiar nos bons. É tão antinatural, penso. A verdadeira face está nos maus e é tão mais fácil correr atrás do que se vê….
Lançou-me um olhar vagaroso, como quem pintasse a linha da minha íris. Perguntou sobre os bons que metem medo.
— É porque eles não refletem muito bem suas maldades. É mais difícil ver neles algo que se pretendesse corrigir. Assim, em meus sonhos, desconfio muito mais dos bons.
Os olhos cravaram em mim uma última pergunta: já que o sonho pareceu revelador, estaria eu pronto para ser melhor ou pior a partir disso?
— Ah! Certamente pior. — disse.
E fechei meu pequeno espelho.

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