Lobisomem Amazônico

Comentários recentes

  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback

Era uma tarde muito quente quando entrei num pequeno barco que em Belém chamam de pô-pô-pô, que é quase uma canoa com um motor de popa, para atravessar a Baía do Guajará em direção às ilhas defronte da cidade.

As dimensões amazônicas nos enganam: o volume de água é tanto que parecíamos montados em um barquinho de papel, sendo jogados de um lado a outro, enquanto o motor gritava e baforava em seu heroico dever de transportar gente, comida e bicho, participando assim do estilo de vida ribeirinho, típico da gente do Norte que aprendeu a ver e viver a água como se fosse a rua da sua casa.

Venho atrás de uma história que me passaram e que já tinha rodado meio mundo jornalístico sem um tom que não fosse jocoso ou satírico. Uma “estória”, como me disseram, e que para se averiguar, alguém precisava ser completamente doido.

Eu sempre me achei doido mesmo.

Como ninguém me patrocinou, vendi a minha velha Rolleiflex, herança de avô, e o meu Fusca 68, ainda com garantia, para verificar a tal “estória” de um lobisomem na Amazônia.

Esse relato teria se dado antes deste tempo, nas décadas do século XIX, mas seria a principal causa do ilhamento da população continental levando à formação dos ditos ribeirinhos.

Os ribeirinhos são um povo com interessante modo de viver: caçam, coletam frutos, fazem pequenos roçados e pescam, sendo esta sua principal subsistência. Vendem seus excedentes ao povo do continente ou fazem escambo por outros produtos. Sua vida é regida pelos ciclos de maré ao longo do ano, com casas em palafitas sustentadas em vários metros ao aguardo das cheias dos grandes rios.

Bom, ao seguir o rastro do caso, saí de São Paulo e cheguei em Belém pela Varig, indo direto ao jornal Estado do Pará para conseguir as dicas necessárias para aportar com os ribeirinhos. Foi-me informado que quem conhecia a história seria um idoso de nome Guilito, na Ilha de Cotijuba.

A ilha não foi difícil de encontrar porque é grande e seu Guilito morava em sua porção norte, sendo bastante conhecido dos moradores e pai de uma extensa família, todos ribeirinhos.

Ao anoitecer do dia seguinte a minha chegada, fazia um clima ameno. Quase toda a família se reuniu para o relato do lobisomem amazônico, o lobo-índio ou o vira-cão, como chamaram primeiro. Seu Guilito raramente gosta de contar essa história, pois lhe é cansativa, mas ainda sim é um resgate de uma memória de gerações e a explicação de seu povo viver nas ilhas.

Vamos à transcrição do conto.

— Há algumas gerações atrás que não se contam quantas, nosso povo antigo, os Tupinambás, viviam em aldeias nas terras próximas aos rios, mas não moravam nestas ilhas, pois além do rio para atravessar, não havia muita caça e as áreas eram pequenas.

“Era uma época em que muitos estrangeiros paravam na cidade, principalmente aqueles que queriam subir o Amazonas para conhecer ou explorar.

Algumas histórias contam que foi uma doença e que veio da Europa, que é uma terra distante. Veio pelo mar. Assim como trazem mercadoria pra vender, vem também o que tem de bom e de ruim.

Nestas bandas do mundo, não se conhecia sequer o que era um lobo. Hoje tem revista e rádio e a gente já sabe o que é. Bicho grande e é como um cachorro, mas é maior e tem mais pelos.

A coisa toda começou com as noites de Jaci, de lua cheia. Os índios ouviram uivos que vinham das matas. Muitos ficaram com medo, pois não conheciam aquele barulho. Sabiam os sons de muitos animais, mas aquele era diferente. Era forte e longo, porém foi algo que não gostaram porque a mata havia silenciado.

Um guerreiro, Apoena, foi a primeira vítima dentre os do nosso povo. Ele havia se distanciado da aldeia que, com a lua cheia, facilitava bastante enxergar na noite. Ele foi encontrado só no outro dia e estava muito machucado, com mordidas e arranhões de um bicho cujas marcas ninguém conhecia. Havia sangue, muito sangue em volta e não era do guerreiro.

Após uma melhora, Apoena informou ao cacique que saiu da aldeia por causa do uivo constante que vinha da mata. Para ele, era um animal ferido e sua curiosidade o levou na direção de algo muito ruim. Terrível.

Ele falou que detrás de uma árvore muito grande saltou um animal do tamanho de um homem, seus olhos eram vermelhos como brasa e o pelo era denso e negro como a noite.

Apoena não estava com arco e flecha, apenas empunhava a sua borduna.

O monstro atacou de frente, usando as garras arrancou pele e sangue e tentou morder o pescoço do indígena, cujo recuo rápido talvez lhe tenha salvado a vida. Apoena desferiu um golpe com sua arma, acertando a lateral do monstro que soltou um ganido e subiu em uma árvore, escalando muito rápido.

Apoena sentiu que o perigo não se afastou, apenas iria atacar de cima. Ele, então, correu para a área com menos árvores que encontrou. Lá, sozinho, olhava para cima em todas as direções quando o monstro atacou pelas suas costas. Naquele momento, ele girou o tacape com toda a força lançando o peso da arma na direção do que se aproximava e bateu no braço daquela coisa que teria quebrado os ossos de qualquer outro animal, mas foi a borduna que rachou e, enfim, na terceira investida daquele bicho, a ponta da madeira quebrada fincou-lhe na pele e produziu um verdadeiro urro de dor na besta.

Após o relato, um grupo de guerreiros se organizou para seguir os rastros do animal ferido para saberem do que se tratava. Encontraram, pela indicação de sangue e pelos a partir do local indicado por Apoena, encontrando um homem branco caído e ferido. Eles acharam que o homem também tinha lutado com o estranho animal e, estando muito machucado, levaram-no para tratar na aldeia.

O homem recobrou os sentidos dois dias depois, acordando muito agitado e gritando como se sofresse de um forte pesadelo. Foram precisos dois homens para segurá-lo e pouca coisa se entendia do que falava. Ele perguntava insistentemente sobre se alguma fera, se alguma besta infernal havia sido vista e, pior, se alguém havia sido machucado pelo demônio.

Os indígenas pouco o entenderam, porém após se acalmar, ele foi levado ao cacique para dizer quem era, o que fazia e como fora parar tão longe da cidade.

Seu nome era Marcos e ele veio de mudança da Europa para o Brasil, pois havia ficado muito doente, de uma enfermidade que não se conhece muito bem, mas achava que fora amaldiçoado pelo seu Deus e que havia episódios nos quais ele sabia que fez mal às pessoas, mas não conseguia se lembrar.

Enquanto se recuperava naqueles dois dias inconsciente, houve muita discussão na tribo sobre o que aconteceu à Apoena. Alguns diziam tratar-se de um encontro desafortunado com algum animal desconhecido, que atacava como uma onça e era necessário um esforço de caça envolvendo outras tribos.

Ao saber dessas informações, Marcos explicou ao grupo o que era um lobo e a lenda do lobisomem que trazia da Europa, além do seu medo de ser um e de, em noites de lua cheia, transformar-se e matar pessoas.

O chefe quis saber como ele havia se tornado o tal lobisomem. E ele disse que fizera um pacto com o diabo e foi enganado.

Os índios se entreolharam e, com muito medo, se afastaram de Marcos, pois diziam que ele conhecia o próprio Anhangá.

Passara-se então quase um mês com Marcos na tribo. O cacique não queria deixá-lo ir, apesar da sua insistência pelo perigo que representava estar ali na próxima lua cheia. Então, em uma reunião foi decidido que ele seria amarrado com cordas e guarnecido por dois guerreiros. Os demais ficariam prontos, vigiando a própria aldeia.

Na manhã seguinte, não havia sobrado quase ninguém.”

Todos os que escutavam a história estavam mudos. O manto da noite caía naquela varanda à beira do rio. Os incômodos mosquitos pareciam ser a única companhia a fazer algum som. O rio corria manso e o café coado no pano era passado de mão em mão enquanto nosso contador olhava fixo para o nada, cascavilhando a memória em busca do correto fio da sua narração e, falando bem devagar, retomou:

“— Quase todo mundo… morreu.

Durante a fase da lua cheia mais alta no céu, Marcos começou a gritar e girar em torno do próprio corpo. Seu tamanho cresceu e ficou um gigante. Pelos saíram de suas costas e suas unhas tornaram-se garras do tamanho de facas. Seu rosto afunilou e os olhos ficaram como que brasas, num vermelho medonho e ele soltou um uivo muito alto. Era como um cão gigante.

Os guerreiros que o guardavam atiraram várias flechas e, com outros homens armados de lanças e tacapes, jogaram-se sobre a fera, derrubando-a e a deixando imóvel e bastante ferida.

Um outro uivo foi então ouvido e os indígenas perceberam o seu descuido: era Apoena.

No dia seguinte à matança, a única outra pessoa viva era o estrangeiro Marcos. Apoena se desesperou ao ver os homens, as mulheres e as crianças de seu próprio grupo estraçalhados. Uma dor que nunca sentiu antes o lançou sobre o chão. Ele gritava e urrava. Não queria viver mais. A dor o consumia.

O que mais o afetava é que ele não tinha nada da memória dos seus ataques, mas sabia que tinha sido ele mesmo e, em sua consciência, ele não merecia viver mais.

Então, lembrou que Marcos fora poupado e que ele era a provável fonte daquela desgraça que atirava o seu espírito num sofrimento. Ele, então, foi em direção ao prisioneiro que ainda vivo pedia-lhe a morte por misericórdia. Apoena ajoelhou-se ao lado do prisioneiro ainda em cordas e perguntou como se matava aquilo que agora também morava nele.

Marcos disse que era preciso uma bala de prata no coração, mas Apoena riu e disse que nunca vira uma na vida. Ele lembrou, contudo, que nunca viu nada viver sem a cabeça, logo, pegou uma faca e degolou Marcos.

Apoena tinha virado o primeiro lobisomem destas terras. Atacou aldeias, vilarejos e até partes isoladas de cidades. Algumas pessoas que ele contaminou viraram lobisomens e passaram a ser chamadas de vira-cão pelos povos do norte.

Ele não migrava para matar, era para encontrar quem pusesse fim a sua dor, a sua angústia. Sua desgraça minava a sua mente e, cada vez mais alucinado, passava a matar mais e ter menos memória de sua brutalidade, deixando-o, por fim, louco. Foi nesse período que nosso povo mais antigo veio para estas ilhas, pois descobriu-se que ele não nadava. Foi um jeito de se salvar e de continuar vivendo sem a fera.

Hoje, ainda se procuram os herdeiros de tal maldição, principalmente entre os asilos de alienados. A besta é só instinto, enquanto que o homem que se transforma nela carrega sozinho a culpa.”

Terminei a gravação e logo retornei à São Paulo sem saber ao certo o que fazer com isso. Acho que deixarei guardado, quem sabe num futuro alguém não o traga à luz, nem que seja por meio de um conto?!

Ainda não há respostas

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *