Tardinha. Cheguei em casa. Silêncio. Quietude que parecia uma calma acolhedora por mais um dia de trabalho, mas para quem tem uma adolescente, sempre cabe reclassificar o sossego como prenúncio de tormenta. Logo, apurei o ouvido e esperei.
Um som harmonioso e baixo quebrou o clima da cena, pois era o primeiro ruído de movimentação na casa que percebi. Uma música conhecida, bem conhecida, foi se formando na minha percepção. Era o Hino Nacional cantado à capela pela voz de uma jovem com belas maçãs no rosto, sorriso largo e gargalhada inconfundível: a Fafá de Belém.
De pronto, um baú de memórias e sentimentos afloraram, como se o ar começasse a me fazer reviver um tempo passado às subidas de tom no ritmo compassado da cantora. Tristeza ou alegria, açúcar ou sal ou talvez um gosto umami de saudades que se traduziu em nostalgia. Penso, enfim, que uma das mágicas da Fafá ali, naquele contexto, foi fazer que os brasileiros, cantantes robotizados do Hino Nacional pelos anos de ditadura, refletissem ali o significado da força dos seus versos, já que em todas as suas apresentações ela mostrava a potência da sua interpretação.
Tá, mas e a adolescente? Cadê? Fui entrando na direção do som e vi que vinha da televisão. A Pietra estava sentada no chão, com o meu ‘dinossáurico’ aparelho de videocassete e algumas caixas e fitas amontoadas de forma displicente.
— Oi, pai. Tudo bem? — a moleca me cumprimentou assim que virou a cabeça.
— Peguei o seu videocassete pra ver como funcionava, mas não o abri pra ver como é por dentro, não. Só queria ver se ele ainda lia as suas fitas… cassetes?!
— Sim, chamam fitas cassetes mesmo — respondi, sentando no sofá próximo dela.
— Só achei as imagens muito ruins, mas o som não é tão ruim assim — disse baixando o volume.
— É porque a sua geração conta com uma tecnologia muito mais desenvolvida para essas coisas. Não sei que tal você não estar com o celular na mão pesquisando o que tá vendo.
Peguei, então, uma fita da pilha e nela li “As 7 Faces do Dr. Lao – Sessão da Tarde – 1985”. Sentindo o seu peso, o plástico rígido e o leve movimento dos carreteis, corri um dedo pela lateral da fita até achar um pequeno quadrado que pressionei fazendo abrir a tampa do cassete.
— Olha! É assim que se abre para a fita ser colocada corretamente. Um procedimento automático — falei mostrando a fita magnética preta.
— E como ela é lida, pai?
— Ah, geração digital! — falei em tom de brincadeira, mas expliquei: — A fita passa por uma cabeça, o cabeçote, que lê os arranjos magnéticos para a tv. Bem tosco, né?!
— Curioso — respondeu, levantando-se para ficar ao meu lado olhando a tv.
A tv mostrava uma imagem com uma granulação grosseira e um foco muito limitado. É engraçado como a imagem na mente da gente casa como uma chave e fechadura para o sentimento da nostalgia. Se a imagem tivesse sido corrigida de alguma forma ou o som tivesse sido recentemente remasterizado, essa viagem temporal não acontecia com tal força. Por isso disse para uma Pietra que já queria ver pela internet.: — Vamos ver essa gravação mesmo, filha. A fita é de 1984 e o videocassete é da década de 80. Fiquemos assim.
Pietra ajeitou a coluna na poltrona e enquanto aquele hino era liderado pela Fafá, acho que na Candelária, com milhares de vozes e mais de um milhão de pessoas, ela me perguntou.
— Como foi ver tudo aquilo, pai? O que foi essas Diretas Já?
Parei para pensar um minuto, pois não sabia se tinha vivido mesmo a experiência das Diretas Já, pois contava apenas 9 anos naquele tempo. Bom, achei mais seguro comentar os meus sentimentos de menino com a história que aprendi amadurecendo.
— Bem, filha, você sabe que vivíamos sob uma ditadura militar de 64 até 85, quando foi eleito um novo governo civil, ainda que indiretamente, com a eleição de Tancredo Neves e, em seguida assumindo seu vice, José Sarney, pois o primeiro morreu após a eleição.
— Foram vinte e um anos de regime militar, com os presidentes sendo indicados pelas Forças Armadas e referendados por um colégio eleitoral.
— Nossa, pai. Ninguém votava???
— Não, só o tal do colégio eleitoral, no Congresso. Era uma forma de manter o controle de múltiplos mandatos sempre nas mãos dos militares.
— E como isso foi mudando?
— Óbvio que houve uma multidão de fatores, mas o desastre que estava a economia no Brasil no final de 79 e início de 80 foi um golpe muito duro. O povo estava de saco cheio! Era inflação, corrupção, censura, exílio, denúncia, greves… eu lembro da minha mãe me mandar correr na frente de um funcionário que tinha uma maquininha de colocar os preços nos produtos do mercado para que eu os pegasse antes dele remarcar.
— Como assim? Na cara dura mesmo?
— Sim, Pietra, o preço aumentava na sua cara. A sua avó pegava todo o salário dela e praticamente gastava tudo num ‘supermercado do mês’, porque se não, ela não compraria nem a metade se esperasse muito.
— Então, as pessoas começaram a pedir a volta do regime democrático, não… minto, elas nunca deixaram de desejar esse retorno, mas agora dava pra falar mais abertamente. Em 79, muitos exilados voltaram com a Lei da Anistia, que perdoava os algozes e opositores dos regimes militares e permitiu a volta de muitos deles. Pelas gravações, eu via aquelas pessoas se abraçando e chorando em aeroportos. Tava tudo mudando… era tudo emoção.
— E essas Diretas Já, então?
— Pois é, em 83 e 84, o povo começou a se reunir em comícios por todo o Brasil, pedindo o fim da ditadura, eleições diretas, a formação de uma assembleia constituinte, direitos de manifestação e de liberdade partidária, dentre outros. Coisas que você nem sente que tem, mas já nasceu com elas vigentes.
— Pai, desculpa, mas tô ficando cansada. Isso tudo não tá na internet?!
— Sim, mas escuta o que eu vi, o que eu lembro. Na verdade, o movimento não conseguiu, para aquele momento, as eleições diretas. Já te falei do Tancredo, né?! Sabe o que eu acho que coroou aquela época de final de ditadura e início de redemocratização? Nem sei se a história concorda comigo, mas é o meu achismo, minha opinião mesmo.
— O quê?
— Uma coisa chamada Rock in Rio.
— O festival que tem quase todo o ano?
— Sim. O primeiro foi um megaevento que ultrapassou qualquer sonho de festival que a gente pudesse imaginar. E foi em janeiro de 85, um ano depois das Diretas Já e junto com a eleição do Tancredo. As melhores bandas nacionais e internacionais estavam ali. Gente que só víamos em capa de disco de vinil e pela televisão fora do Brasil e que vieram cantar no Rio de Janeiro. O país parecia de ponta-cabeça.
— A gente já tinha se acostumado a ouvir plateias grandes cantando em festivais, mas dificilmente com um milhão de pessoas como esse Comício da Candelária, mas isso tudo era pra gente, era uma coisa interna do Brasil. Pro mundo, pro exterior, eles viram um surpreso Freddie Mercury orquestrando um coro também de um milhão de pessoas cantando Love of my Life. Romântico que sou, pra mim foi o nosso tchau para um período escroto e que tinha que acabar e um simpático olá para uma coisa que colocaria a gente de volta nos eixos contemporâneos internacionais, talvez de uma coisa que viria a ser chamada hoje de globalização. A gente não tava tão fechado assim como se pensava. A cultura sempre foi libertadora.
— Valeu, pai…
Quando me dei conta, a moleca já tava em outro aposento e com o celular na mão, pelo menos parecia estar aprendendo a canção do Queen e espero que na versão daquele ano de 1985. E ainda gritou:
— … e não se preocupe que o hino eu já sei!!!
Conto apresentado no II Concurso Literatec – tema “Marcos Históricos, Tecnológicos e Culturais”, 2023.

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