Macaco sem Rabo

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  1. Joaquim da Silva Xavier em Feedback
the sun is setting over a lake with trees in the background

O nascer do sol e um rio.

Do outro lado da Baía do Guajará, víamos o amanhecer de uma Belém que desafia o sol com seus nascentes pináculos de ferro, vidro e concreto — verdadeiras barreiras para o vento que antes grassava e dançava no interior da cidade abraçando de forma refrescante tanto o boêmio quanto o cristão que em pé estão pelas suas velhas calçadas e ruas.

O cheiro do café passado adicionado a um leite sempre natado com um pão francês tira a preguiça das costas do belenense para então pendurá-la onde lhe aprouver e, depois do almoço, recolocá-la às costas durante a sesta do sol quente ou no calor abafado de uma noite aborrecida quando a terra lhe nega o vento e a brisa.

Aqui não tem café, pois eu e o seu Guilito estamos, como todas as manhãs, trepados no cume de uma pequena samaumeira do barranco mais íngreme na mais sacudida das ilhas que fica defronte de Belém.

Seu Guilito, antigo fazedor local de barcos de miriti, foi quem me ensinou tudo dessa trepação antes do desjejum, sempre me dizendo: — Antes de comer com a boca, coma com os olhos. A beleza dessa terra abre melhor os apetites!

Então, muitas, mas muitas manhãs mesmo, nós temos esse nosso ritual particular. Só que hoje, quero é reaprender sobre o rio. Então repito a pergunta cuja resposta nunca me canso de ouvir:

— Ô, seu Guilito, o que o senhor pensa desse rio todo?

O velho, que estava um galho acima do meu, olhou-me de lá e fazendo um sorriso que pareceu mais uma careta, respondeu:

— Esse desaguado todo é do rio Amazonas, filho, todinho ele! 

— Mas é muito! — repliquei.

— Com certeza. Quem sabe quanta terra e vida ele carregou lá da sua cabeceira até aqui?! Quantos gostos e histórias! Devem ser tantos que até memória, se bobear, esse monstro tem.

Tomado da minha jovialidade, quis mostrar que conhecia um outro grande rio, uma informação nova só pra esticar o papo com o velho.

— Dizem, seu Guilito, que do outro lado do mundo tem um rio grande como este, só que é uma deusa descida dos céus sobre uma trança do cabelo de outro deus e as bênçãos dos pés de um deus maior. Acho que é a Índia.

Seu Guilito, com a paciência da idade que só o tempo pode conferir, desceu do seu galho e se colocou ao meu lado. Respirando profundamente e paternalmente foi me dizendo:

— Olhe, meu filho, eu sei, sim, mas uma vez ouvi que o Amazonas se formou pelas lágrimas da lua à conta de um amor impossível com o sol, mas que era tamanho o choro que foi preciso um oceano para diluir tanta água para que não afogasse a terra inteira.

E continuou:

— Vê o sol na linha do horizonte? De manhã é como um disco de ouro rajado aqui e ali de vermelho que vai pontilhando assim as espumas do rio. De tardinha, é o inverso: o vermelho dá o tom e o dourado perfila a superfície de suas águas. Em tudo se arrepiando como se fossem as escamas de um grande peixe.

— E tem mais: O rio dá e tira o que quer. Aqui, a própria existência do ser humano está ligada à prevalência do rio. O rio manda até na terra, filho. Seu poder é tão grande que some com ela parte do ano. E se isso não for típico de uma divindade, pelo menos deveríamos tentar tratá-lo como se fosse uma. Não se esqueça disso nunca!

Fiquei pensando, então, nesse rio e seu aspecto senhoril e divino e, finalmente, notei a nossa realidade ali: balançando numa samaumeira de uma ilha nós dois, macacos sem rabos, embalando nossas preguiças e pensando num rio que pode ser um deus, mas que está mesmo entre a gente e a cidade, entre nós e o nosso café.

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