Au M. le Redacteur en chef – Le Petit Parisien.
Finalmente, vai acontecer! Apesar de todos os meus esforços em advertir a França que a exposição de 10 de agosto pelo aniversário do Louvre coloca em risco a posse da Mona Lisa, a festa irá acontecer. Que pena!
Soube que chamaram ajuda externa e que o perdigueiro de Baker Street está a caminho. Será como a Guerra dos Cem Anos, mas dessa vez o Francês vencerá. A mágica se dará no próprio dia, de noite, e bem debaixo do nariz daquele perdigueiro e do mundo. Meu roubo, um sucesso! E o meu triunfo, o da França sobre a Inglaterra!
Cordialmente,
A. L.
— Esta foi a última carta, Mr. Holmes. O redator do Le Petit Parisien a trouxe há uns dias. Parece-me que a notícia da sua vinda aqui foi como incitá-lo a cometer o crime com mais determinação.
Holmes senta na única cadeira disponível na pequena sala do préfet de police de Paris, uma espécie de comissário de polícia, bate o fumo queimado do seu cachimbo Peterson. Acende-o novamente e pergunta:
— Como foram as outras quatro cartas? De teor semelhante? Ou nosso astuto amigo se empolga com a proximidade do evento?
— Como o senhor soube das quatro cartas? A imprensa só liberou três — falou o prèfet baixinho.
James Watson que estava num canto da sala pigarreou por saber que as deduções de Holmes tinham pedido licença para entrar em cena. Watson sempre esperava por isso, mas nunca deixou de se impressionar. Holmes, então, responde baforando:
— Acho que conheço esse indivíduo um pouco melhor do que você, sir! O estudo da criminologia me permite perceber, observar, espreitar e entender a mente criminosa. Lupin, posso assim dizer, é um mestre do crime. Desdenhar os ensinamentos de um professor do nível do nosso Moriarty seria estupidez da minha parte.
— Além disso, nosso amigo gosta de padrão, a última carta foi 30 de setembro, as outras que li foram dias 15 e dia 20. Onde estaria, então, a do dia 05?
M. Junot, o comissário chama o secretário que traz uma carta que não fora considerada relacionada à Lupin, pois apesar de assinada, continha detalhes que a polícia considerou estranhos ao caso.
— Como vê, Mr. Holmes, esta carta não nos diz nada sobre o roubo, é como se ele estivesse apenas testando nossos correios, por Deus!
— O senhor se importa que eu fique com esta carta, senhor préfet? — pediu cordialmente Holmes.
— Claro, Mr. Holmes, não sabemos que proveito tirar dela, talvez só o senhor, mesmo. Ah! Ia esquecendo: o senhor será acompanhado pelo inspetor Justin Ganimard, o nosso especialista em Lupin!
Holmes e Watson dirigiram-se em silêncio a um restaurante em Montmartre, onde Watson pediu de joelhos para experimentar um ovo poché com cogumelos selvagens, de forma que Holmes temeu pela própria vida se recusasse experimentar.
Finalmente, Watson conseguiu falar algo após comer:
— Por que, afinal, guardou a primeira carta, Holmes?
— É a mais importante. É nela que ele diz como vai fazer. As outras só confirmam a data e horário. Nossa elegante raposa gosta de dizer que nunca deixou de avisar. Então, só preciso analisar direito essa carta.
— Vai repartir com Ganimard nossas informações? Trabalharemos com ele?
Holmes olhou profundamente desgostoso para Watson, aparentando um enfado típico de quem ouve uma questão retórica e desnecessária, mesmo assim não luta contra o ímpeto de explicar o óbvio e elementar para Watson:
— Caro Watson, você é como um cavaleiro com uma visão privilegiada do caminho, pois é por sobre meu dorso que tem a gloriosa chance de nos acompanhar. A parelha é entre mim e Lupin. Infelizmente, nosso Ganimard é apenas um pangaré.
Watson funga pelos bigodes e faz nova pergunta, dessa vez pensando ser mais inteligente:
— Essa carta parece pequena, o que diz?
Holmes abre o pequeno bilhete que assim diz:
Ao Le Petit Parisien,
Já tenho os 406 chifres da cabra adquiridos na luz do mundo e agora as entregarei ao faminto Leão no décimo dia do oitavo mês deste ano. Em seu lugar sempre a paga da pirita pelo ouro e é a ave que enleva a dama.
A. L.
— É óbvio que ele já roubou a Monalisa desde o início do ano, quando se tem o período do signo de capricórnio. Os 406 chifres são os anos que a obra faz, estimada sua conclusão em 1506, sendo este ano o de 1912.
Watson reage sempre surpreendido: — Meu deus!!! Ao que Holmes, impassivelmente continuou:
— No dia dez de agosto, que é o dia do aniversário do Louvre, ele entregará ao público, ao Leão uma obra falsa que, pela sua avidez, acreditará estar vendo a original. É a pirita, o ouro-dos-tolos, que se pagará pelo ouro verdadeiro que ele já levou.
E arrematando sua visão da missiva:
— O cisne é o modo de traficar a obra, possivelmente um barco.
— Watson, queira ter a gentileza de avisar o comissário de policia para periciarem o quadro que eles possuem, pois o roubo já aconteceu e desde janeiro.
À noite, em reunião com o ministro do interior da França, ficou acertado que não se diria nada sobre o roubo e Holmes ficou autorizado a tentar pegar Lupin na única chance que se via, o dia 10 de agosto, no cais de Paris.
Lupin andava colado à Holmes e Watson pelas ruas de Paris, porém imperceptível, pois para cada deslocamento da dupla, ele se tornava um cavalheiro distinto e diferente. Lupin trajava a camuflagem perfeita: à vista de todos.
Era, enfim, uma forma de estudar mais de perto aquele perdigueiro inglês que, como Lupin imaginou, foi capaz de elucidar seu simples quebra-cabeça em minutos o que policia não fez em meses. Pensou: “é de fato alguém à minha altura e minha vida seria mais prazerosa com Mr. Holmes que o pobre Ganimard. Eu devia ir viver em Londres!”
Para Lupin, o roubo em si não foi muito difícil, pois conhecia excelentes falsificadores que lhes deviam favores, bem como olheiros para se montar um quadro da rotina do Louvre. A paciência, uma amiga sua do cárcere, dotou-lhe de uma calma e parcimônia incomuns no espírito. Tornar-se, então, um vigilante mal pago e que impediu um assalto planejado por ele mesmo e alguns comparsas ao Louvre foi simples e lhe deu uma aura de confiança.
A troca da tela original pela falsa na carruagem que recolhia corpos de indigentes naquela Paris foi um toque de gênio. “Gioconda, a indigente”, pensou sorrindo.
Anunciar um roubo que não ocorreria, mas que todos achavam que iria acontecer para trazer o que poderia haver de melhor na polícia para o caçarem no 10 de agosto é o que, de fato, impulsionava Lupin. Holmes lá, então, era um presente.
Ainda andando na rua, Holmes estaca e pede gentilmente que Watson ande alguns passos e se vire para encará-lo de frente. Quando Watson assim o faz, Holmes segura o pulso de um cavalheiro aos seu lado e diz:
— Sei que anda atrás de nós, M. Lupin, mas a forma de pegar o castão da bengala, a casaca de mesmo tamanho para os mesmos ombros e a cartola à inglesa o destacou na multidão. Respeito o fato de ainda não querer mostrar o rosto, por isso Watson é quem lhe vê como está agora, caso precise de mais algum testemunho.
Deliciando-se com a surpresa, Lupin baixa a cabeça e diz:
— É um prazer, M. Holmes, mas como adiantaria um processo ou mesmo uma prisão sem o item para comprovar.
— Provarei no dia 10, garanto.
— E eu o aguardarei.
— No cais? Perguntou o inglês.
— Oui! Foi a resposta.
Na noite do dia 10, Holmes, Watson e parte da polícia se encontravam no Porto de Paris. Duas embarcações tinham nomes de aves: o Cisne, um veleiro escocês e a Andorinha, um barco a vapor inglês.
As embarcações foram muito revistadas, mas nada do quadro e Arsène Lupin foi reconhecido por Watson embarcando para Londres no Cisne. Como acusação alguma poderia ser-lhe imposta, ele apenas sorriu e fez um gesto de reverência sarcástica para Holmes e em seguida embarcou.
Holmes ficou com a policia ainda um tempo, olhava as águas que se mexiam no Sena, vendo os botes que levavam materiais para os navios, quando, de repente, notou uma gaivota pintada em um deles.
O bote logo foi parado e a tripulação e o material desembarcados e, dentro de uma caixa, uma moldura conhecida.
— Aí está. Nossa Mona Lisa! Bateu de leve com sua bengala, Holmes.
Atrasado, mas sem perder nada, o inspetor Ganimard surge e inspeciona o pacote com o quadro. Holmes evita o colega que, ao fitá-lo, diz:
— Está preso, M. Holmes, a obra está em seu nome com destino a Baker Street, Londres.
— Absurdo! Holmes e Watson dizem a uma só voz.
— Pode ser, mas até que o contrário prevaleça, vocês estão presos por mim.
Ao longe com uma luneta, Lupin sorri do pangaré prendendo o cavalo e pensa em Londres.

Uma resposta
Muito bom, ótimo texto e inspiração