Desce, sobe, entra e sai…
Ping! Térreo. O elevador chegou e logo entro sem perceber que descia. Frio na barriga, ele desce aos subsolos.
A mágica dessa suspensa caixa que sobe e desce se faz: Estranhos vizinhos entram agindo como familiares conhecidos: “— Bom dia!”, “— Bom dia!”. “— Bom dia!” — respondo. Todos sorriem com a prática de anos de plástica social: o mesmo sorriso misto de “Ah! Sai daqui!” ou “Aguentemos todos até sairmos desta!”
Parada. Primeiro subsolo. Mais dois “bons dias!” e seguimos. Neste momento, exprimido no fundo do elevador, comecei a pensar que essa máquina é um dos maiores exemplos da famosa Lei de Murphy. Veja só: se eu tivesse pedido para ir ao subsolo dois, tenho a certeza de que essa porcaria teria subido ao décimo-oitavo andar e desceria feito anzol na árvore. Porém, como entrei no térreo para ir ao décimo-sexto, ele desce até o inferno, mas finalmente começa a subir.
Parada. Terceiro andar. O indivíduo entra, mas não vai descer, vai até o nono andar. Que porra de vizinho acha que tem que ficar visitando alguém àquela hora… ah… é o síndico… pago pra ser pentelho mesmo.
Parada. Nono andar. Troca de pentelho. Sai o síndico e entra outro e que vai pro meu andar.
Vou vendo todos descendo ou saltando do elevador, a depender do dia e do meu humor: se eu estiver bem, eles descem; se eu estiver mal, eles saltam. Hoje eles despencariam! Vou ficando só e me perco em pensamentos…. Ping! Térreo. Não percebi que descia e que perdera meu andar. Tudo de novo e lá vem o frio na barriga.

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