Na Delegacia de Repressão à Homicídios Múltiplos de São Paulo, um alvoroço se forma em
torno da apresentação voluntária de um homem que se diz autor das mortes atribuídas ao
assassino em série apelidado de Assassino da Lua Cheia.
A delegada Rosângela Chaves assume a situação.
— Alguém sabe quem tomou o depoimento daquele maluco que afirma ser o assassino da
lua cheia?
— Não, doutora, mas acho que o Zé pode ter feito o sujeito falar.
— Eu? Nã-nã-não. Aquele idiota pediu uma caneta e um papel e disse que escreveria o
acontecido. Vê só, doutora, nem precisei tomar nota que ele quis logo abrir o bico na caneta.
Assassino da Lua Cheia… é um lunático mesmo. Isso, sim!
— É, pode ser doido, mas escapuliu por três estados até onde se sabe: Bahia, Minas e o
Rio. A Federal tá levantando que ele pode ter aprontado mais. Bichinho perigoso esse!
— Tá. E onde é que tá esse bendito desse papel? Que tenho que ver esse caso logo. Os
jornalistas já se foram?
— Sim, doutora. O homem não abre o bico, só se for depois de a senhora ler a carta dele.
Deve ser de amor.
— Ah, não enche meu saco! Cadê?
— Na sua mesa, doutora, num envelope pardo e sem marcas.
Ela entra e fecha a porta da sua sala, o odor de cigarro que vem do corredor diminui à
medida que o do café recém-passado na máquina invade suas narinas. Há três folhas no
envelope e o conteúdo escrito à caneta que pretende ser uma confissão muito esperada.
Ela sabe que se pegou o cara certo, será bom pra sua carreira. No entanto, uma boa
confissão é como um bom asfalto, não deixa buracos, mas a segunda coisa notada é que
não tem assinatura, o que a faz soltar um longo suspiro. “Vai dar trabalho”, pensa e começa
a ler.
“Senhora Delegada de Polícia.
Doutora,
Venho por meio desta confessar todos os assassinatos atribuídos ao Assassino da Lua
Cheia.
Todo o mês, há um dia em que não lembro de anoitecer, não lembro da tarde, mas ele me
brinda com uma dor terrível pelo meu corpo inteiro que nenhum ser humano deveria sentir.
Acordo em locais diferentes, com o mesmo gosto de sangue na boca. Meu sangue? Não
sei, pois a minha boca sempre está muito ferida também. Desperto com um frio que abraça
meu corpo, todas as vezes nu nas bordas de matas que eu sequer conheço.
Sempre que estes eventos me ocorrem, acontece uma série de assassinatos. Brutais.
Homens, mulheres e crianças, velhos e novos, dilacerados, retorcidos e quebrados. Começo a achar que a sujeira marrom de minhas unhas quebradas sejam sangue e carne dessa
pobre gente que pagou o preço ao cruzar o caminho de algo em mim, uma maldição. Não
saber ao certo se sou culpado ou um alvo das coincidências da vida me maltrata a alma.
A vida de ninguém é marcada para ser fácil ou difícil. É a gente que faz a vida ser da forma
que é. Acho que a minha miséria consumiu o que havia de melhor em mim. A pobreza que
se acumulava em mim: na aparência, nas coisas e na fome persistente testava a minha fé
mais do que eu pude suportar. Parecia até que Deus olhava para o outro lado quando o
diabo me acolheu, esgueirando-se para dentro da minha vida quando eu ergui meu prato vazio em troca da minha alma. Não foi uma decisão difícil. Ele satisfez a minha fome, mas me deu em troca
um prato eternamente vazio nos dias de lua cheia.
Nessas noites eu alimentei o demônio com aquelas pessoas. Como posso conceber
tamanha monstruosidade nascida dentro de mim? Essa tal criatura que me tornei é um lembrete da minha condenação ao inferno. Então descobri a ironia de que na verdade já era um monstro antes de me tornar um de verdade.
Esse gosto e cheiro de sangue que eu sempre carrego é uma sina invisível da marca desta
besta interior que eu sei mata, dilacera e destrói tudo.
Eu não consigo pensar em mais nada. Minto! Há algo em mim que não perde espaço para a
criatura. Uma solução: a morte. Rogo que alguém me mate numa dessas desventuras ou
que uma centelha de misericórdia de Deus me tire desta vida.
Não posso matar mais.
Peço ao Pai que eu consiga resolver esta minha vida no tempo em que a doutora termina de
ler esta carta.”
Percebendo o significado daquela última sentença, a delegada rapidamente coloca os
papeis sobre a mesa e sai da sala dando comandos.
— Zé, coloca o maluco numa cela separada. Quero olho nele e chama o psiquiatra pra
avaliar. Não temos uma confissão, tem só alucinação e ele quer morrer!
— Ah, foi carta de amor. Ganhou até privacidade…
— Engraçadinho. Faz logo o que te disse, porra!
O Zé volta correndo e dispara: — Doutora, o homem tá morto.
Os procedimentos para este tipo de ocorrência são rápidos e a verificação da causa da
morte logo entendido. Ele havia pagado aos companheiros de cela pelo serviço. Uma
simulação de morte súbita. Ninguém soube como e, na verdade, ninguém quis saber.
— Agora não tenho mais nada — disse baixinho a delegada.
— E como vamos fazer sem saber se ele era ou não era o assassino? Ou talvez o
lobisomem?
— Nada. É esperar as próximas luas cheias e ver se tem outro doido pra irmos atrás.
E no Brasil, não houve mais mortes múltiplas nos dias de lua cheia.

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