Foi isso mesmo?
Belém, 21 de julho de 1969.
Eu tinha fechado a mercearia da minha mãe havia algumas horas. Resolvera encerrar mais cedo naquele dia específico, pois a Globo estava transmitindo desde a manhã pela sua afiliada na época, a TV Guajará, canal 4, a chegada do homem à lua. Era como se a transmissão fosse ao vivo, via satélite e diretamente na TV como nos dias de hoje. Nós tínhamos uma SEMP de 1950 funcionando atrás do caixa onde as pessoas ali estavam se aglomerando só para ver e ouvir as repetições sobre a Columbia se aproximando da lua e ninguém iria comprar mais nada mesmo.
Bom, com o avançar das horas as pessoas foram se retirando e só ficaram ali três tios meus, irmãos da minha mãe. Ela já tinha ido se deitar e não queria saber da lua naquele momento. Acho que estava mais preocupada com a ditadura, pois dizia: “— A luta é aqui e de lá a lua não sai!” Tinha lá a sua sabedoria, achei.
Esses tios tinham chegado do interior e eram pessoas bem simples. Vinham direto pra casa da minha mãe, muito mais em função da tv, comida e cachaça do que pela visita em si. Naquela época, os mais velhos tinham uma autoridade sobre a gente. Logo, por mais que eu estivesse cursando direito numa faculdade e ajudasse minha mãe no comércio, tinha que ficar ali com meus tios e suas talagadas que eram “pra espantar o frio e o sereno”.
Meu tio Mário, então, foi o primeiro a me perguntar:
— Ô, Pedro, como é que funciona esse troço dessas imagens lá da lua? — ao que me voltaram os olhos os tios José e Luís, pois eu era tido como o “sabichão” da família e, como num jogo eu seria desafiado pelo saber popular que eles traziam já que na família nunca teve “dotô” e eu deveria tocar a mercearia ao invés dos estudos.
— Tio, é mais ou menos assim… — dei uma espécie de volteio com os braços no ar porque teria que ter espaço para teatralmente falar de foguetes e suas idas e voltas à lua.
— Os astronautas vão numa cápsula no topo dos foguetes que geram a potência para eles subirem e escaparem da gravidade da Terra em direção à lua, que fica muito, muito longe mesmo.
— A cápsula é uma nave pequena chamada Columbia onde eles têm controle, comida, água, comunicação e a transmissão também. Daí, fica um nessa nave e os outros irão numa parte da nave chamada módulo lunar que é a Eagle, águia em inglês, então pousam e não sei o que vão fazer ainda. Depois voltam pra Terra naquela Columbia mesmo.
— Tá! Mas como é que isso tá na televisão? Indagou novamente tio Mário.
— É por satélite, aquelas máquinas que ficam flutuando na órbita da Terra. Elas recebem um sinal da nave e o distribuem pelo mundo.
— E como tu sabes disso tudo, ô pequeno? Perguntou o tio Luís.
— Os jovens não falam de outra coisa e lá no curso tivemos que fazer um trabalho sobre o Direito do Homem Espacial na Nova Era. Não gostei. Égua, esculhambou minha semana! Até parece que vamos morar no espaço!
— É! interveio o tio Mário — a gente veio conversando sobre isso pelo caminho e achamos que é mentira dos americanos por causa dos russos. Onde já se viu?!
Neste momento, a tv mudou a imagem e o Hilton Gomes recomeçou a falar que os astronautas iam finalmente desembarcar depois de uma eternidade sem movimentos e sem som.
— Hmmmm…. — meu tio José, o mais calado e desconfiado dos três, ainda não tinha terminado suas dúvidas, prosseguiu indiferente à tv:
— Pedro, tu estás dizendo, então, que tem algo parado no céu para transmitir sinais e que o homem colocou lá? Mas rapaz, eu que vivo longe de lugar iluminado e sempre que vejo o céu nunca vi isso. Tens certeza? Não era pra eu vê? Desconfio logo!
E como ele era o mais velho dos três, virou-se pro tio Luís e deu a ordem:
— Luís, vai-te logo lá na rua e vê se tu vês esse tal de satélite. Se tá transmitindo agora ele tem que aparecer.
Comecei a rir por dentro.
Tio Luís ensaiou um protesto bastante ignorado por todos, mas obedeceu e foi pra porta.
Já era quase meia-noite quando o jornalista, bastante entusiasmado, traduzia o que o astronauta Neil Armstrong dizia ao saltar da Eagle: “É um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade.” E daí, vimos o que nos pareceu uma espécie de boneco branco e desengonçado pulando de uma escada.
Eu disse logo: — Até que enfim! Foi a semana nisso!
Um tio Luís sério entrou comentando:
— É mentira, tudo mentira. Fui lá, fiquei vendo o céu. Só nuvem! E quando abria não tinha nada, nem coruja. Ah, e ainda vi a lua e fechei bem os olhos e não vi nadinha, necas de pitibiriba!
— Afff… não é pra ver, tio, é muito longe. Tá aqui na tv, tá passando direto. — disse eu.
Tio Mário resolveu engrossar a conversa e de um modo, digamos, mais pitoresco.
— Olha, eu vi o homem pular na lua aí na tv como estão dizendo e me diz, agora, como ele não escorrega e nem pulou de volta se ela é emborrachada como um queijo? Hã? Hã?
— Tio — respondi querendo soltar a risada — ela é de rocha, é um satélite. Daí o tio Luís rebateu:
— Mas se é satélite, não tinha que ter sido feito pela gente e não devia estar no céu aqui perto, como o “senhor” disse? E se é de Rocha, como flutua então?
Aí, a paciência não deu mais… eu tinha que rir se não passava mal. Porém, isto foi uma roubada, pois o tio José começou a me olhar de forma muito severa e mandou bala:
— Mas quaaaaando!!! Tu tá de pavulagem, é?! Olha, comigo tu te faz de doido que o pau te acha! Aqui, tu me respeita, moleque! Tá, já que tu queres, vou te perguntar agora: vou pensar que é verdade tudo que passou aí e a tua explicação. Tá bom, eu aceito, o mundo muda e a gente tem que ir junto, né?! Agora, tu me dizes: tu vistes São Jorge na tv, hein, hein?!
Acho que eu emudeci, não sei se foi o choque, mas continuaram os três:
— E o cabo para a transmissão, viu? Viu? Tem um da lua pra cá?
— E essa história de bandeira. Lá tem vento pra bandeira? Hein? Hein?
— Tem pelo menos uma escada pra lua? Viu alguma pra lá… pois é, ninguém tem uma tão grande.
— Isso tudo é armação dos americanos. A gente está sendo feito de besta aqui até altas horas por um tiquinho de ação!
— Tu não vai ser dotô? Então, vai acreditar nessa besteirada? Deixa de ser pomba lesa!
— Queres a lua? Peralá…. tá aqui, tirei a cobertura da bola de queijo do reino. Tá aqui! A TUA lua.
E simplesmente não paravam de rir e caçoar de mim. Resolvi tentar salvar o pouco que me restava de orgulho:
— Tios, tios, prestem atenção! Cês já viram um avião voar, né?! E sabem que um submarino desce até a profundidade do mar, certo?! E por que não daria pra chegar até a lua? Levantamos e submergimos coisas muito grandes todos os dias. É tão difícil assim?
— Submergir? Perguntou meio envergonhado o tio Luís ao tio Mário, que respondeu rindo: — É afundar… ele quer falar bonito, o dotô!
Ignorei, mas esperei a resposta e veio do tio José que, pitando em seu banco, disse:
— Olhe, isso eu não sei te explicar, mas desconfio que a gente imitou os passarinhos que voam e os peixes que nadam… agora começamos a explodir uma foguete no traseiro de alguém pra subir pro espaço, é… pode ser; mas nunca vi alguém mostrar o dragão de São Jorge. Ninguém falou nele até agora, então pra mim é mentira.
Parei e pensei: “Sabe, pra que ainda ir discutir depois da meia-noite?” Fui pegar um copo de cachaça e fomos planejar tentar ver o dragão na próxima lua cheia.
Ah, e afinal, eles entendiam tudo direitinho e só estavam sacaneando o dotô aqui.

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